© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Friday, 20 August 2010

A escrita sem palavras

Li a entrevista que o Mia Couto deu à Ler já há alguns meses, e fiquei surpresa com algo que ele refere, porque nunca tal me tinha passado pela cabeça. A alturas tantas ele sugere que terá feito qualquer coisa como um esforço consciente para se livrar do estigma de ser apenas "aquele tipo que inventa umas palavras". Quis mostrar para si mesmo, mais do que para os outros, que a sua escrita era mais do que isso, e que os neologismos que a caracterizam não a determinam nem sequer são a sua marca predominante. Isto vinha na sequência da ideia de que muita gente, de facto, o vê, e vê a sua escrita, dessa forma, isto é, ter-se-à formado, na cabeça de algumas pessoas, a imagem do Mia, como escritor, apenas como aquele tipo que escreve bem porque inventa umas palavras bonitas e tal. O inventar palavras seria assim encarado como um artifício, um malabarismo, um truque que atravessa os seus livros e a sua escrita, e sem o qual esta não seria a mesma.

O que me surpreendeu não foi tanto o facto de ele, como escritor, sentir necessidade de romper com esta ideia, de desafiá-la, de a pôr em causa; foi mais o facto de tal ideia jamais me ter passado pela cabeça. Desde que comecei a ler os seus livros, há umas boas duas décadas, que a sua escrita me encantou de tal forma que arrisco a dizer que não há outro escritor como ele no mundo inteiro; apesar de todas as influências óbvias e menos óbvias, de Guimarães Rosa a Luandino Vieira, a escrita do Mia é inconfundível e tem uma identidade própria muito forte, que se desenha imediatamente na cabeça do leitor, logo às primeiras linhas. Nunca me passou pela cabeça que a qualidade dessa escrita se devesse às tais palavras inventadas. Não vou dizer que os neologismos não são uma marca importante dela; claro que são, e isso também fica logo claro às primeiras linhas. São, contudo, parte dessa escrita tal como um braço faz parte de um corpo, ou como os peixes nadam na água, ou como as nuvens estão no céu. Para mim não existe a escrita ou o estilo do Mia, por um lado, e o facto de inventar palavras, por outro. São uma e a mesma coisa. Aliás, na minha opinião, não são apenas palavras que ele inventa. Ele inventa um outro modo de olhar o mundo, ele inventa toda uma geografia de sensações, olhares, texturas, superfícies, sentires; em suma, ele inventa todo um universo, que afinal é apenas um modo de o olhar, de o vestir, ou de o pintar, com palavras inventadas, sim; mas essas novas palavras estariam lá na mesma, ainda que ele não as escrevesse. Porque não são as palavras, por si só, que definem uma escrita, assim como um todo não se define apenas pela soma das suas partes. As palavras, mais do que meros tijolos ou ferramentas de escrita, são portas abertas para outros universos, e nesse sentido, são sempre novas. O que Mia nos dá nos seus neologismos não é um artifício, ou um passe de mágica, ou um truque para nos iludir; o que ele nos dá é o mesmo que toda a sua escrita nos dá: a magia e a simplicidade de um olhar sobre as coisas mais simples e ao mesmo tempo mais complexas; a capacidade de descobrir a beleza, mesmo no horror; aquele modo com que os poetas teimam em não deixar de ver o lado belo de tudo, e de partir em busca dele, ainda que para isso tenham de passar horas apanhando pedrinhas do chão, tal e qual como o seu pai fazia, conta-nos ele, não nesta entrevista, mas numa conversa que vi algures num vídeo no youtube. Para muita gente os poetas são uma raça à parte, muito engravatados e muito cinzentos, muito sérios, a maioria deprimida ou à beira do suicídio, que escrevem sem cessar versos cheios de palavras esdrúxulas, obtusas, ligeiramente obscuras, com aquela luminosidade escura das criaturas marinhas que vivem escondidas nas profundezas dos oceanos; sempre com as rimas e as métricas certinhas, e as tónicas no lugar. Os poetas, no entanto, são apenas pessoas simples, que de fora do comum possuem tão só a forma peculiar de olhar o mundo e procurar as tais pedrinhas, que até podem ser uns calhaus baços e sem graça, mas que nas suas mãos, ou nos seus olhos (ou nas suas palavras) adquirem um brilho novo. A poesia talvez seja, assim, a característica mais distinta da escrita do Mia. Poesia onde habitam todas as palavras, as inventadas e as por inventar. Não são as palavras que fazem a escrita, é a escrita (que é muito mais do que o acto de escrever) que cria as palavras, que as veste, que lhes dá significado e tudo aquilo que elas transportam. A palavra é o território da escrita, sim, mas não um território demarcado e absoluto; no fundo as palavras são sementes que o escritor lança à terra, para que germinem. Não são estanques nem definitivas; são antes mutantes, ágeis, esvoaçantes. Ainda que o Mia escreva um livro sem uma única palavra inventada, elas estarão lá, talvez invisíveis a olho nu, apenas miragens nas entrelinhas, naquele espaço sem palavras, na folha em branco onde todo o escritor finge que escreve, quando afinal apenas traça um esboço, ainda que tosco, daquilo que crê ver do mundo, de si e dos outros.

Wednesday, 17 March 2010

Um Pai em Nascimento, de José Eduardo Agualusa

"O meu filho está na idade do polvo - a todo o momento nascem-lhe imprevistos braços e as respectivas mãos." É assim que começa uma das crónicas do livro de José Eduardo Agualusa, Um Pai em Nascimento. Lembrava-me desta frase, nunca mais a esqueci, desde um dia, já há alguns anos, em que achei que não havia melhor forma de descrever aquela idade em que as crianças se lançam na exploração do mundo, virando-o de pernas para o ar, e a nós com ele, pelo que agarrei na Pais & Filhos de então e fotocopiei a última página (espero que não se lembrem de me autuar por atentado aos direitos de autor ao fim de tanto tempo) para levar para uma sessão de formação que leccionava na altura a um grupo de futuras amas e auxiliares de educação. Lembro-me, aliás, que o que realmente pretendia era introduzir alguma corrente de ar, digamos assim, naquelas sessões, onde tinha de ir falando sobre as primeiras etapas do desenvolvimento infantil. Uma aragem fresca num assunto que facilmente se pode tornar monótono e aborrecido.

Reler essa crónica, ao fim de (quantos?) doze anos (ou serão treze?), e ler pela primeira vez muitas outras, foi muito mais do que uma janela aberta, digamos que foi um vendaval, quase uma tempestade tropical, que me agitou a memória e, muito mais do que a memória, aquelas sensações primitivas que me sacudiram as entranhas quando engravidei pela primeira vez. A gravidez das mulheres é muito mais física, concreta e palpável do que a dos homens, esta mais etérea, sonhada, sublimada. Os homens, impossibilitados de carregar o bebé, (ou de chocar o ovo), têm de gerá-lo noutro lugar, aquele que transcende o corpo, ainda que em comunhão com ele: a cabeça, ou o coração, para os mais românticos. O que é curioso é que as mulheres, apesar de ligadas ao bebé pelo cordão umbilical, pelo âmago da sua essência física, não deixam de construir, elas também, esse outro lugar, essa morada, esse país, que começa por ser distante e remoto, mas que se vai tornando cada vez mais nosso, onde começamos por habitar, primeiro como estrangeiras, e depois, cada vez mais certas, como mães.


"Gostaria de acreditar" diz José Eduardo Agualusa, "que ao partilhar as minhas dúvidas, ansiedades e alegrias, estou a contribuir para que alguns homens se sintam um pouco menos sozinhos nos seus erros e algumas mulheres um pouco menos acompanhadas nas suas formidáveis certezas." 

As certezas das mães, ou o seu famoso instinto, que parece advir apenas do facto de serem mães, e que eu acredito que nasçam dessa intimidade fisiológica que não admite distância nem estranheza (és carne da minha carne, sangue do meu sangue, o que é que posso não saber de ti?) são, elas também, vulneráveis aos ventos agitados da alma, quando, chegadas a esse lugar remoto, que nasceu algures entre a barriga e o coração e a cabeça, se encontram com essa outra mulher, esta acabada de nascer, e cheia de dúvidas e medos e ansiedades tão poderosas como as raízes de certas árvores e certas verdades cósmicas. Por isso uma mãe também partilha com o pai este território desconhecido, em que ambos nascem sem se reconhecerem, como se precisassem de aprender tudo de novo, como se olhassem para o mundo pela primeira vez. Uma mãe também se reconhece nas dúvidas de um pai que não sabe para onde vai, que se questiona e pensa sobre o que é isso de ser pai. É esse o verdadeiro milagre da vida: permitir-nos habitar outros mundos como se fossem nossos.

Recomendo este livro a toda e gente e especialmente àqueles pais (homens) perdidos e embrenhados no mar de dúvidas e angústias da primeira viagem. Não porque vão encontrar respostas, mas porque certamente encontrarão a certeza tranquilizadora de que não são os únicos náufragos nessas águas, certeza essa que é sem dúvida a melhor bóia. E porque, para além disso, irão desfrutar das gargalhadas que os salpicos da água provocam a quem se embrenha nessa fantástica aventura, a de ser pais e a da leitura destas crónicas.