© Gabriela Ruivo Trindade

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Friday, 1 July 2011

Uma Mulher De Palavra

Era uma mulher de palavra. As palavras nasciam-lhe nos braços e derramavam-se pelas mãos abertas. Fugiam-lhe entre os dedos. Era uma mulher de palavra, e ficava sem palavras. A voz perdia-se nos labririntos dos argumentos e emudecia nos becos sem luz das trocas azedas de palavras; palavras gastas à bruta e à pressa, mal nascidas, cuspidas, vomitadas, violadas; a ela, uma mulher de palavra, a voz atraiçoada. Quando cantava abria o peito aos pássaros e esquecia as palavras; esquecidas, as palavras antes esfaqueadas ganhavam força e melodia e voavam aladas nas alturas, mergulhavam na água das nuvens, mexiam o corpo e dançavam; caíam, exaustas, e escorriam languidamente pelo pescoço de Deus, volúpia interdita e apetecida, interrompida por meias palavras, murmúrios, rios silenciosos de asas nocturnas, risadas cristalinas, água espelhada no charco de um olhar minucioso, íntimo, um olhar preciso, atento, irrequieto, pronto a morder. As palavras iam e vinham, nasciam, morriam-lhe na boca, a ela, uma mulher de palavra. Uma mulher sem palavra. Uma mulher nua. Uma mulher vestida apenas com a pele do corpo, e as palavras que já não lhe cabem na boca. Uma mulher sem boca. Louca. Alucinada.

(este texto foi um dos vencedores do Desafio de Escrita - Micronarrativas, promovido pela ecO - Associação Cultural de Leiria, e foi publicado hoje, 1 de Julho, no Região de Leiria.)