© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Monday, 20 January 2014

Desempregada

Um desempregado é alguém que não trabalha, dirão. Então a pergunta que se deve colocar antes é, o que é trabalhar? No dicionário online da Porto Editora encontrei alguns significados: preparar para um dado fim; melhorar (algo) através de trabalho mental; instruir; formar; treinar; exercitar; lidar com; enfrentar; negociar; empenhar-se; esforçar-se; fazer com arte; contribuir. Há mais, mas em nenhum deles trabalhar pressupõe remuneração.

Sendo assim, um desempregado é alguém que trabalha sem ser remunerado. As circunstâncias que o levaram ao desemprego, ou que o mantêm no desemprego, podem ser muito variadas; não é isso que está em causa. O que é importante é tentar perceber a origem da ideia de que os desempregados não trabalham. Porque essa é, quer queiramos quer não, a mentalidade que impera.

A primeira coisa que me parece pertinente referir é que não se é desempregado, está-se desempregado. O desemprego é um estado, que pode ser mais ou menos temporário; não é um adjectivo que possa definir uma pessoa ou uma das características dessa pessoa.

A segunda parte da questão prende-se com o facto de o trabalho não ser valorizado em si, mas sim através do valor da sua remuneração; e este quanto a mim é o problema. E, na minha opinião, as mulheres desempregadas têm sido (continuam a sê-lo) as principais vítimas deste tipo de mentalidade. O trabalho que uma mulher, mãe de família, tem em casa todos os dias não é minimamente valorizado. Também não o é quando é um homem a fazê-lo, parece-me - o que acontece é que os casos são (ainda) raros. E, paradoxalmente, quer-me parecer que quem desvaloriza mais este quadro da mulher que fica em casa são as outras mulheres, aquelas que trabalham. Há quase um medir de esforços, do tipo: eu, além do trabalho doméstico, ainda tenho o meu emprego, portanto estou mais sobrecarregada; elas passam o dia em casa e têm muito mais tempo para os miúdos e para as tarefas domésticas.

Quer-me parecer que as coisas não são assim tão simples. Toda a gente que tem de cuidar de uma casa e dos filhos sabe que as tarefas são ininterruptas. Não dão descanso, a não ser que a pessoa opte pelo descanso. Por outro lado, e por mais que amemos os nossos filhos, é um trabalho desgastante, não só pelo cansaço físico, mas principalmente pelo que tem de alienante:  facilmente leva ao isolamento e à diminuição das competências sociais. De uma forma mais simples: a pessoa não sai de casa, a não ser para ir às compras, ou levar os miúdos à escola, ao parque, ir com eles ao médico, etc; mas o mais importante é a privação no contacto com outros adultos.

Por outro lado, as pessoas que têm um emprego usufruem dessa benesse: as horas no emprego representam uma pausa no trabalho doméstico (e aí não há outra hipótese: deixam-se as coisas por fazer) e também o contacto com outras pessoas. Se por um lado estas pessoas podem sofrer da pressão de terem pouco tempo para as tarefas domésticas e para estarem com os filhos, por outro isso significa que usufruem da tal pausa na rotina e nos afazeres domésticos que as primeiras não têm. Qual destas opções é a melhor? Eu atrevo-me a dizer que venha o diabo e escolha. Não há melhor aqui. Ambas são desgastantes, ambas envolvem muito trabalho, malabarismo e dedicação; ambas têm prós e contras.

E outra coisa muito importante: é que quem tem um emprego é pago, o que significa que socialmente o seu trabalho é reconhecido e valorizado, e isso é benéfico em termos de auto-estima; ao passo que quem fica em casa não vê o seu trabalho reconhecido. Esse é um dos maiores dramas de quem está desempregado. O seu esforço e trabalho são invisíveis, não existem. Ninguém os vê, e como tal, ninguém os valoriza.

Em relação a este último ponto, existem factores culturais envolvidos. Imaginem uma mulher portuguesa a enviar o currículo para uma empresa, onde terá escrito uma secção dizendo que passou os últimos cinco anos a cuidar da casa e dos filhos. Com certeza que isto seria recebido, senão com gargalhadas, pelo menos com um sorriso de troça. Pois fiquem sabendo que aqui, no Reino Unido, isso é recomendado. Há inúmeros sítios onde as pessoas se podem dirigir para procurar ajuda para elaborar um currículo, e nesses sítios é aconselhado que se coloquem coisas deste tipo, por uma razão muito simples: é que o facto de alguém ter passado um tempo a cuidar da casa é valorizado: isso diz aos empregadores que aquela pessoa tem boas capacidades de gestão, de organização, de trabalho em condições de stress (principalmente se tem filhos); em suma, isso abona em favor do candidato.

Em Portugal, não acredito que nenhum empregador, fosse homem ou mulher, valorizasse tal facto. Naturalmente pensariam, coitada, é maluca com certeza, para pôr uma coisa destas no currículo. E porquê? Porque uma mulher que passa anos em casa a cuidar da casa e dos filhos não faz mais do que a sua obrigação. É assim que são consideradas as capacidades de gestão e organização de uma casa e de educação dos filhos: uma obrigação das mulheres, até mesmo, e principalmente, pelas próprias mulheres. E sendo assim, quem o faz está condenada a nunca ser reconhecida nem valorizada. O que não retira em nada às sua capacidades, esforço, organização, dedicação e resiliência.

Da próxima vez que me chamarem desempregada, por favor, lembrem-se disto.

Thursday, 16 January 2014

Café do Cristiano

Boas tardes. Entre, menina, entre. Sim, viu logo pelo nome, não foi? O quê? Passa aqui todos os dias e nunca tinha visto este café? Deve andar distraída, que a gente já aqui está vai para cinco anos. É verdade: está aqui a minha patroa que não me deixa mentir. Então e o que vai ser? Um cafezinho? Uma meia de leite? Um bolinho? É o que está à vista: pastéis de nata, mil folhas, bolinhos de arroz, queijadas, travesseiros de Sintra... Olhe que são dos verdadeiros: trabalhei uns anos na fábrica das queijadas, em Sintra, a menina conhece? Foi lá que aprendi a receita. Também temos aqui umas broas de Natal e umas filhoses, estas foi a minha patroa que fez. Ora então é uma ucal e um pastel de nata? Sente-se, menina, sente-se que eu levo já. Aí na mesa do Cristiano Ronaldo; está a vê-lo aí na parede? Pois, ali também, e aqui nesta parede tenho mais três. É o café do Cristiano, pois, foi por causa do nome que viu que era português, não foi? Ah, mas não associou ao Cristiano Ronaldo? Então, mas que outro Cristiano é que havia de ser? Cristiano só há um, o Ronaldo e mais nenhum! Ah! Ah! Ah! Aquilo é um moço de ouro, menina. Madeirense como eu. Mas no meu tempo era uma desgraça, nunca ia sair dali outro como ele. Então veja lá, eu nasci no meio aqueles montes a perder de vista, aqueles vales por ali abaixo; a menina já foi à Madeira? Não? Tem que lá ir, para perceber o que lhe digo. Olhe que em miúdo nunca vi o mar, a menina acredita numa coisa destas? Já era quase homem feito quando fui ao Funchal a primeira vez. Naquele tempo não havia cá transportes nenhuns, a gente vivia numa miséria que só visto, contado já ninguém acredita. Aqui está, o leitinho e o pastel de nata. Deseja mais alguma coisa?

Diga? Um copinho de água? É para já. Está bem aí? Veja lá se quer vir aqui para junto do balcão, aí está muito perto da porta, e faz muita corrente de ar, mesmo com ela fechada. Foi o meu marido que lhe disse que se sentasse aí na mesa do Ronaldo, não foi? A menina não ligue, que ele tem esta cegueira com o Ronaldo, até parece que é um filho. Sabe que a gente perdeu um filho, e também se chamava Cristiano, nascido no mesmo ano e tudo. Já foi assim depois do tempo, sabe, que nessa altura já tinha dois filhos criados; desconfio até que foi por isso que não vingou. Foi, foi muito duro, a menina nem imagina. E depois olhe, quando o Ronaldo começou a ficar famoso, o meu marido foi o que se viu, parecia que era o nosso Cristiano. Já reparou nas fotografias, não é? Mas há mais: olhe ali atrás do balcão, está a ver aquelas canecas com a cara dele? E os cinzeiros, já viu os cinzeiros? E a árvore de Natal? No lugar da estrela está o Ronaldo. Até no presépio, o menino Jesus é um recorte de uma fotografia dele, que vinha numa revista. Coisas do meu marido.

O que é que a menina tanto escreve? Desculpe lá a pergunta, mas fiquei curioso. Sabe que fiquei aqui a pensar, a sua cara não me é estranha. Já a vi em qualquer lado. A menina é jornalista? É que agora passou-me pela cabeça, querem ver que está a escrever assim para um jornal? Se calhar até sobre o Ronaldo, pois, então a menina não sabe que ele vai ser Cavaleiro da Ordem do Infante, ou lá o que é? Diz lá, Maria? Ah pois, não é Cavaleiro, é Oficial, Grande-Oficial, pois, é isso, é. Aquele moço é o meu orgulho. Ai não é sobre isso que está a escrever? Mas o que é que tem assim tanto para escrever, a menina?

Não ligue ao meu marido que ele é mesmo assim, mete-se com toda a gente, faz perguntas, perguntas, aquilo é uma máquina de fazer perguntas. E sabe que o sonho dele é um dia aparecer na televisão ao lado do Cristiano Ronaldo. Meteu isto na cabeça. Ali atrás do balcão, em chegando à cozinha, há assim um recanto onde ele fez uma coisa que parece um altar. Com umas imagens do Cristiano, e umas velas, e tem sempre lá flores. Até pôs assim uma almofada no chão para se ajoelhar. Diz que conversa com ele. Eh! Eh! Eh! Pois, eu até me rio, mas tem de ser assim sem que ele perceba, que isto para ele é um assunto muito sério. Então o sonho dele é que as pessoas vejam a devoção que ele tem ao Ronaldo. Desconfio é que ele gostava que isto chegasse aos ouvidos dele, do moço, pois, e que ele viesse cá. Isso é que ia ser! Acho que o meu marido morria de comoção! Foi por isso que meteu na cabeça que é jornalista, pois. Isto ele não diz nada mas eu conheço-lhe os pensamentos. É muito ano juntos, menina. É o que é.

Eu já a vi, sim, e foi há pouco tempo. Não apareceu na televisão?

Ó Zé, deixa lá a menina, mais as tuas perguntas!

Pronto, peço desculpa. Isto são coisas de velho, a menina não ligue. Mas pode escrever o que lhe digo: não há outro café igual aqui ao do Cristiano. Este moço é o orgulho da nação. Os portugueses ficam deslumbrados mal cruzam a porta e vêem as fotografias dele. Eu bem vejo a maneira como sorriem e apontam. E quando há jogo então, a menina nem sonha! É uma festa, a menina tem que cá vir um dia ver os jogos da selecção. É como se estivéssemos todos em casa. Já reparou que os portugueses reunem-se todos neste e noutros cafés? Parece que nos farejam à distância. Quando aqui entram é como se viajassem até Portugal. É ou não é? Não é por isso que a menina cá vem? Para beber a sua ucalzita, comer o seu pastelinho de nata, matar saudades de falar português? Há bocado quando entrou vi logo que era portuguesa, foi por isso que dei as boas tardes sem peguntar nada. Ora, então, pelo seu sorriso! Eu reparo em tudo. Foram os seus modos, assim à vontade, como se estivesse a abrir a porta de casa. Aquele brilho nos olhos de quem vai dizer, olá, bom dia! Não há nada que se compare a isso, pois não?  Já vi muito, sabe, já andei por esse mundo fora. Aos vinte e dois anos embarquei num navio que aportou no Funchal e desde aí nunca mais parei. Olhe, já vivi em Portugal, na Bélgica, na Itália, na Alemanha, até no Brasil, vivi lá quatro anos, mas isso foi antes de casar. Isto sem contar com os sítios onde só fui de passagem. Tenho visto muita coisa, menina. Por isso lhe digo que tem cara de jornalista, dessas que aparecem na televisão. E digo mais: pode escrever tudo o que lhe contei. Tome nota, não se esqueça de nada. E depois publique numa revista, num jornal, onde quiser. Pode ser que assim chegue aos olhos do nosso Cristiano e ele resolva fazer-nos uma visita. Já imaginou, o Cristiano Ronaldo a entrar por aquela porta? Olhe que ia ser o dia mais feliz da minha vida. Por isso escreva, menina. Escreva.

(este texto foi publicado, numa versão reduzida, na revista Sábado de 16 de Janeiro de 2014)