© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Sunday, 21 September 2014

Estrangeira

Acho que desconhecia o verdadeiro significado desta palavra até ao momento em que percebi que não só as pessoas à minha volta falam uma língua diferente: os gatos, os cães, as vacas, as ovelhas, os cavalos, também. É verdade, toda a criação fala uma outra língua.

A primeira vez que tomei conhecimento do facto foi com um simples espirro. Estava numa aula de inglês, onde aprendíamos algumas canções, e uma delas era a famosa:

"Ring-a-ring of roses 
A pocketful of posies 
A-tishoo! A-tishoo! 
We all fall down..." 

Estava a preparar-me para perguntar o que queria dizer aquela palavra esquisita, "A-tishoo!", quando de súbito os meus ouvidos entenderam, ao ouvir a música numa gravação. Afinal era um espirro!

De então para cá a surpresa tem sido constante e completa: os cães, nas raras vezes em que ladram, não fazem ão, ão! nem tão pouco béu, béu!, mas sim ruff, ruff! ou woof, woof! O miar dos gatos nem destoa assim tanto: em vez do miau, fru fru, temos um meow. Os passarinhos não piam, fazem tweet tweet! Os pintainhos, ‘tadinhos, produzem algo como cheep cheep cheep cheep… Os galos, quando acordam a vizinhança, produzem um som singular, qualquer coisa como cock-a-doodle-doo, que eu sempre que leio, à primeira vista, confundo com crocodilo. O cacarejar das galinhas não podia ser melhor: cluck cluck cluck cluck! Já os pirúns, em vez do famoso glu-glu-glu-glu soltam um gobble gobble gobble! Os patos fazem quack quack. Menos mal. As ovelhas, Baaaaa! Baaaaa!, com ar desdenhoso. Quem é que se lembraria de lhes chamar memés, neste caso, babás? As vacas, no meio da ruminação, brindam-nos com um Moooooooo! Os burros, não sei se zurram ou não, com os seus hee haw. Os porcos, em vez de grunhir, emitem uns oink oink! As rãs soltam uns ribbit ribbit ribbit!, no meio dos charcos. E os leões berram roar!

Estão a perceber? É que eu até posso falar em inglês, escrever em inglês, pensar em inglês, quem sabe até, sonhar em inglês, e, apesar do sotaque revelar sempre a minha condição de forasteira, sentir-me mais ou menos em casa, com o passar dos anos. Mas o que nunca vou fazer, é espirrar como eles. Não, isso recuso-me. Não troco o meu atchim por nada deste mundo, muito menos por um a-tishoo. Nesse aspecto, serei sempre uma estrangeira, e obstinada.

Thursday, 18 September 2014

My darling

Em Inglaterra toda a gente se chama de querido sem se conhecer de lado nenhum. É perfeitamente natural utilizar o dear em contexto formal, nomeadamente nas cartas em que nós apenas nos atrevemos a utilizar o V. Exa para cá e o Exmo. Sr. para lá. Mas as coisas não ficam por aqui. Quando o carteiro vos traz uma encomenda registada, e se despede com um see you, sweetheart, não precisam de corar. E se a senhora do centro de saúde nos brinda com um my darling no meio da troca de palavras que medeia encontrar a nossa ficha no computador e fazer o registo, não, não está a atirar-se a nós. É que aqui toda a gente se trata assim, é normalíssimo! Ao princípio estranhei, até pensei que não tinha ouvido bem. My dear? Ele disse my dear?, pensei, enquanto falava ao telefone com um funcionário da British Gas. Imaginem o que é telefonarem para a Portugal Telecom ou para a EDP e de lá dizerem, Oh, querido, obrigada por ter esperado! Ou na farmácia o empregado dizer: Aqui está o seu pedido, amor, desculpe a demora!

Terei batido com a cabeça? Pensariam com certeza. Não, queridos, não bateram. Eu já nem reparo quando o homem que vem fazer a leitura do contador ou atestar a caldeira se despede com um Cheers, love, apesar de o meu filho, de sobrolho carregado, poder indagar com ar desconfiado, why did he call you love? É que os genes, nestas coisas, não perdoam.

Monday, 15 September 2014

O homem do xadrez

Ficava horas intermináveis sentado à mesa daquele café, tendo por única companhia um tabuleiro de xadrez. Jogava. Em silêncio, lentamente, como quem peneira a luz da tarde até esta se transformar em poeira fina de estrelas, lançada para cima do incêndio do crepúsculo. E assim o tempo passava, como passavam os burros no calor da estrada, lá fora, carregados de sacas a abarrotar de cereais e legumes, acompanhados por homens de idade curvilínea; ao mesmo tempo que a tarde se demorava nos pequenos remoinhos de vento seco que levantavam a poeira do chão. Jogava sozinho. Movia uma peça, e depois, com um suspiro, tomava a posição do adversário. Mas não se limitava a tomar o lugar do outro; aquilo exigia uma transacção plena de estados de alma. Para nos defrontarmos connosco próprios precisamos de vestir a pele do inimigo, dizia para os seus botões, enquanto os desabotoava. O xadrez é muito mais do que um jogo inocente de estratégias; o xadrez, é, acima de tudo, a essência da estratégia. Estratégia de quê?, ecoava-lhe o pensamento, e ele encolhia os ombros, sei lá, para o caso pouco importa; o que importa (e o peito dilatava) é a eficácia da estratégia. Ponto final.

Fazia estes diálogos consigo mesmo e sorria sem curvar os lábios, como se habituara desde sempre a sorrir. Hoje, se quisesse sorrir mesmo, um sorriso cravado nos músculos do rosto, a arrepanhar a boca, não conseguiria. Teria de fazer um sorriso forçado, daqueles que costumamos ensaiar ao espelho, e que nunca se comparam ao espontâneo, pois os músculos responsáveis por este são movidos por um reflexo involuntário. Desabotoado o casaco, despia-o, pousava-o nas costas da cadeira, e vestia o outro, o que repousava na cadeira à sua frente. Seguidamente, sentava-se nela, e estudava minuciosamente as peças dispostas no tabuleiro, enquanto se demorava a enrolar um cigarro (não fumava, quem fumava era o adversário). Então acendia-o com vagar, e puxava uma fumaça que o fazia soltar uma tossidela. E assim, completamente embrenhado no jogo e nas mudanças de campo, espalhava as horas no chão e ficava a vê-las rolar, como moedas lançadas no tampo de uma mesa. Não saberia dizer quantas; sabia apenas que, todas juntas, caberia nelas a vida inteira. Mas para ele a vida não era uma coisa inteira. A única coisa íntegra que ele conhecia (íntegra era uma palavra muito mais apropriada do que inteira) era a tão almejada estratégia.

Sunday, 14 September 2014

O país dos contrários

À primeira vista parece que é só isso: os carros andam no lado oposto da estrada. Continuamos a pensar assim até ao momento em que nos sentamos ao volante, no lugar que, para nós, continua a ser o do passageiro. Já experimentaram? O que é que tem? É simples: lembram-se daquela sensação, pós tirar a carta, dos primeiros dias no trânsito? O nervosismo, a atrapalhação, a lentidão dos gestos, e estar constantemente a ouvir buzinas e nomes menos próprios? Porquê? Ainda não perceberam? Então vá lá que eu dou mais uma pista: se o volante está à direita, isso significa que a mão que se ocupa da caixa de velocidades é... isso mesmo: a esquerda! Mas as coisas não ficam por aqui, e o melhor é resumir assim: é tudo ao contrário (menos os pés, felizmente que não se lembraram dos pedais, que aí é que a gente dava em doida!), o que aí fazemos com uma mão, aqui fazemos com a outra, a saber: piscas, luzes, limpa pára-brisas, tudo, tudo, meus filhos, até aquele sinal que fazemos às pessoas paradas no passeio para lhes indicar que podem atravessar temos de nos habituar a fazer com a outra mão, é que não sei se estão a ver mas as pessoas também estão do outro lado da estrada. Pois, uma confusão. E há mais! Já pensaram nas mudanças de direcção? E as rotundas? É melhor nem dizer mais nada...

Quando me deparei pela primeira vez com um 20 e um 30 dentro de uns círculos pintados na estrada, pensei com os meus botões, isto deve ser a velocidade mínima, não pode ser a máxima! 20 à hora? Depois é que percebi, claro: não são 20 km, são 20 milhas, ou seja, cerca de 40 km por hora. É que neste país, apesar de oficialmente já terem aderido ao sistema métrico e a todos os outros sistemas universais, continuam a usar as milhas e as onças e os pés... Quem é que se lembra de medir alguma coisa em pés?

Thursday, 11 September 2014

Livros escolares? O que é isso?

Em Inglaterra, nas escolas primárias, não há livros escolares. As salas de aula estão cheias de livros: contos e rimas infantis, estórias com e sem ilustrações. Há-os em toda a parte, desde a creche ao sexto ano, devidamente adaptados à idade das crianças. Depois cada escola tem a sua biblioteca. Só encontramos livros escolares na escola secundária. Estes, no entanto, são propriedade da escola, e transitam de ano para ano, passando de mão em mão, entre os alunos.

Deste modo, é possível um percurso escolar sem gastos em livros. Com o material passa-se a mesma coisa: as salas estão repletas de gavetas cheias de tudo o que é necessário. Tesoura, cola, tintas, pincéis, papel, canetas, lápis, borrachas, afias, réguas, esquadros, compassos, transferidores, sólidos geométricos, papéis de fantasia para corte e colagem, jogos variados destinados a auxiliar a aprendizagem, tudo o que possam imaginar, está na escola. Os livros auxiliares são disponibilizados em fotocópias, e cada criança tem um caderninho de merceeiro, chamado «homework book», onde o trabalho de casa é anotado e feito.

Também não se fazem ditados para contar os erros. Fazem-se livros: primeiro escreve-se a estória, depois monta-se a estrutura: páginas, desenhos, lombada, capa, tudo cuidadosamente colado e cosido. Os mais novos controem livros em 3d, cujas páginas se transformam nas paredes de uma casa ou de um castelo; paredes cheias de desenhos de todas as cores e palavras ainda incertas, letras em espelho e muitos erros. Mas esses não se assinalam a vermelho, porque fazem parte do caminho da aprendizagem, e o mais importante é que a casa tenha bons alicerces. As crianças aprendem quando a sua capacidade de criar é valorizada. Quando vêem os seus trabalhos expostos e apreciados, ao lado do orgulho que a escola lhes alimenta nesse gesto. Quando os agentes educativos não têm medo de elogiar, não vão os miúdos ficar convencidos de que a vida é um mar de rosas. A vida é um mar que se conquista navegando.