© Gabriela Ruivo Trindade

Os conteúdos deste blog estão protegidos por direitos de autor
© Gabriela Ruivo Trindade

Friday, 28 November 2014

O Escritos & Escritores, em Avis

Sexta feira, 17 de Outubro. Viagem Lisboa – Avis. Chegámos pela hora do almoço. O Clube Náutico tem uma vista deslumbrante sobre as águas da albufeira. A comida é caseira, muito bem confeccionada. Durante o almoço, travámos conhecimento com alguns dos membros da ACA – Amigos do Concelho de Avis que tão bem nos acolheram durante o fim-de-semana que durou o encontro. Eu e Fernando Dacosta éramos os primeiros convidados a chegar. Fernando Dacosta está sempre a contar histórias. Para além de conhecer praticamente todos os nomes da grande literatura contemporânea, conviveu com figuras como Agustina Bessa Luís, Natália Correia, Agostinho da Silva, Ramalho Eanes, Raul Solnado, só para citar uns poucos. Chegou mesmo a entrevistar Salazar, o que lhe traz um manancial de histórias de que jamais me cansarei de ouvir.

 A tarde de sexta feira estava reservada às escolas. Fui para a Escola Básica nº 3 Mestre de Avis, onde fui calorosamente recebida na Biblioteca Escolar. A conversa com os miúdos não podia ter corrido melhor.

 Falar para miúdos destas idades não é fácil, ouve-se constantemente. Concordo, porque os miúdos são exigentes e desinteressam-se facilmente. O que não é o mesmo que dizer que não se interessam por nada. Acho que os jovens de hoje em dia não são nem mais nem menos interessados do que os de há trinta anos; o que há, que dantes não havia, é um excesso de informação disponível. A informação, no entanto, quanto a mim nunca é de mais; porém há que saber seleccioná-la, enquadrá-la, adaptá-la e, mais importante, transcendê-la, isto é, ir à procura de nova informação ou mesmo recriá-la, com o conhecimento de que já se é possuidor. O processo de triagem é de extrema importância e revelador da habilidade de distinguir o essencial do acessório. Exige um bom domínio das capacidades de pensamento. A escola, por conseguinte, não se pode limitar a transmitir conhecimentos; os miúdos precisam, acima de tudo, de aprender a pensar, desenvolver ideias próprias e questionar o próprio conhecimento.

 Enquanto eu falava para os miúdos, chegava a notícia de que o prémio Leya deste ano foi atribuído a um trineto do Eça de Queiroz. Engraçado, porque eu estava a contar-lhes de como tentei, com 10 anos, ler a Tragédia da Rua das Flores, e desisti. Os miúdos fizeram montes de perguntas. Era essa a função deles ali: a de repórteres. Depois terão de fazer um trabalho, uma reportagem, sobre o que ouviram. Comportaram-se à altura. Houve alguns risinhos, como é próprio. Aliás, quando me pediram para ler um excerto do livro, escolhi de propósito o começo da primeira voz, em que o Zé Eduardo, mais ou menos da mesma idade do que eles, se queixa do facto de não conseguir conter o riso. Expliquei-lhes que a acção se passa em 1954, onde falar à mesa já era uma transgressão severamente punida; imagine-se então o que seria rir num velório. Acho que eles entenderam perfeitamente, porque há certas coisas na vida que atravessam séculos e gerações, e uma delas é a apetência dos adolescentes para rir nos momentos menos próprios. Esta minha personagem foi criada precisamente a partir desse sentimento de querer conter o riso e não conseguir, e de tentar imaginar o que seria viver isso naquela época.

 Sábado, 18 de Outubro. Depois de um avantajado pequeno almoço no Clube Náutico, o segundo dia da 6ª edição do Escritos & Escritores começou com Chave de Ouro: um grupo de miúdos com idades compreendidas entre os 10 e os 14 anos leram textos e poemas inéditos, dos quais eram autores. Posso dizer, sem sombra de dúvida (e não estarei a exagerar) que foi o melhor momento do Encontro, tanto pela qualidade da escrita, como pelo que ela representa: o interesse, a criatividade, a dedicação, a capacidade e o potencial das nossas jovens crianças e adolescentes, características de que tantas vezes duvidamos.

 O Encontro congregou um pequeno grupo de escritores, no qual eu estava incluída: Maria João Forte, Renato Valadeiro, Maria José Fraqueza (que de fraqueza só tem o nome, como ela própria diz), Lurdes Aguiar Trilho, Sandra Neves, António Manuel Venda, Afonso Cruz, Sandro William Junqueira, Nuno Costa Santos e Fernando Dacosta. Alguns dos nomes dispensam apresentações, outros, menos conhecidos, não deixam por isso de ser menos valiosos: pessoas que se dedicam à escrita de contos e poesia, vencedores de várias edições de Jogos Florais organizados na localidade. E não posso deixar de referir José Máximo, que aos 89 anos de idade nos brinda com os versos saídos do seu lápis, que têm a mestria de um poeta popular, e que a mim me fizeram lembrar os do saudoso António Aleixo e tantos outros mestres da palavra, nascidos na dureza do trabalho nos campos, em tempos que já lá vão.

 O público, tenho de o dizer, era escasso. Mas, em contrapartida, gerou-se um pequeno grupo muito interessado e participativo. O melhor foram sem dúvida as conversas, à volta dos livros e da leitura, das palavras, da poesia, e as outras, à volta da mesa e regadas a bom tinto da região. O melhor de tudo foram as amizades que nasceram, as histórias que se contaram e ouviram, umas com espanto, atenta curiosidade, alma e respeito, outras com um sorriso ou mesmo gargalhadas. Houve momentos hilariantes e descontraídos, outros houve de assombro e afinado escutar. Trocaram-se ideias, experiências, opiniões e pontos de vista, como convém. E também olhares, e sorrisos, e gestos, e humor, em suma, todos aqueles ingredientes necessários à comunhão humana.

 E agora, uma palavra aos escritores, aos leitores, aos jornalistas, aos editores, em suma, a toda a gente ligada ao mundo da Literatura em Portugal: o Escritos & Escritores possui tremendas potencialidades. Tem à cabeça, um grupo empenhado, cheio de ideias e vontade de fazer algo pela cultura, como é a ACA – Amigos do Concelho de Avis, que com pouquíssimos e inconsistentes fundos de apoio organiza e leva para a frente um evento desta natureza, recebe os convidados com uma hospitalidade e dedicação exemplares, assegurando-lhes todas as despesas envolvidas na estadia, deslocação e alimentação, demonstrando um esforço, não só financeiro, mas empreendedor, notável, promotor da cultura nas escolas e junto das populações locais. Avis é uma Vila lindíssima, palco e protagonista de um passado histórico de relevo, de gente acolhedora, rica gastronomia e belas paisagens. Possui infraestruturas de excelência, como um vasto auditório, onde, sábado à noite, nos foi dado assistir a uma produção do Grupo de Teatro A Fantasia, Versejando, que se revelou “uma viagem através das palavras dos poetas do Concelho de Avis”, como está escrito na sinopse. Este auditório seria o palco ideal para um evento literário à escala do que acontece na Póvoa do Varzim com o Correntes ou em Penafiel com a Escritaria, porque os ingredientes estão lá todos: uma equipa de excelência e um grupo de escritores e poetas empenhados e dispostos a fazê-lo crescer. O que falta é a atenção do País e do público interessado. Por isso, aqui deixo o meu apelo, a todos aqueles que fazem dos livros e da Literatura a sua paixão ou profissão. Portugal, os Livros e a Cultura agradecem.