© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Wednesday, 4 November 2015

Gabriela Ruivo Trindade pede mais atenção da parte dos media

Era este o título de um dos links que se podiam encontrar na homepage do Diário Digital, e que davam acesso à minha entrevista publicada nessa mesma plataforma de informação online, na segunda-feira passada.

 Se fosse um trabalho escolar, feito numa aula do sétimo ano, do tipo: lê esta entrevista e depois dá-lhe um título que tente abranger os seus pontos essenciais, que nota acham que o professor daria a um título destes?

Na minha opinião, insuficiente. Insuficiente, porque não representa de forma integral aquilo que eu disse; é aliás, uma representação não só parcial como extremamente adulterada das minhas palavras. Eu dou ênfase a uma questão global, que é a da pouca atenção que os media prestam às mulheres escritoras, e este título, por oposição, personaliza as minhas afirmações. Transforma uma questão geral e pertinente num assunto pessoal, de ego; uma questão da maior importância, quanto a mim, não só no panorama literário mundial (Portugal é apenas uma gota no oceano), como em todos os panoramas possíveis, porque como sabemos a discriminação sexual não se fica pelo meio literário. E quando uma mulher põe o dedo na ferida, e fala disto abertamente, é apontada como alguém que pede atenção para si própria. Uma coisa pessoal, egocêntrica, infantil quase: a mulherzinha a pedinchar a atenção dos media.

Tenho perfeita consciência do privilégio, em termos de atenção mediática, que representa ganhar o Prémio Leya. A questão não passa por aí. E mais: não me faz impressão nenhuma o destaque àqueles autores que estão sistematicamente no foco da imprensa. A maioria são autores da minha eleição. Acho que merecem todos os gramas de atenção de que são alvo, e se calhar mais ainda. Essa atenção tem é que ser multiplicada. Por tantos nomes de que praticamente não se ouve falar, a maioria femininos. E se me incluo no pacote, é porque acho que o meu caso é ilustrativo da forma como as mulheres autoras são tratadas. Tenho a certeza absoluta de que qualquer outro prémio Leya que fosse distinguido com um segundo galardão (estou quase certa de que nunca aconteceu, mas se estiver errada alguém me corrija) já teria, por esta altura, suscitado o interesse da imprensa, de forma muito mais evidente do que aconteceu, até agora, com Uma Outra Voz. E não, não acho que, por já ter tido a atenção devida quando saiu o prémio, deva ficar caladinha e agradecer a dádiva generosa que Deus, ou o destino, me concedeu. Em primeiro lugar porque não foi uma dádiva: o prémio foi ganho com o meu trabalho, suor, esforço e talento. Em segundo lugar, porque acho que tenho todo o direito ao mesmo tratamento que os meus colegas de prémio. A sociedade e os media não estão preparados para uma atitude assertiva e reivindicativa como esta, por parte de uma mulher? Temos pena. Eu não quero a atenção dos media; quero, isso sim, que estes façam um trabalho sério, isento, imparcial, anti-discriminatório. É pedir muito? Se não é lei, deveria. (Como é óbvio, nada disto tem a ver com o conteúdo da entrevista, nem com a forma como foi conduzida, que foi excelente).

Monday, 2 November 2015

Eu não quero a atenção dos media; eu quero é que os media prestem mais atenção à boa literatura, aos autores sistematicamente ignorados, cuja maioria são, indiscutivelmente, as mulheres

"O meio literário é um meio essencialmente masculino; ser mulher obriga a um esforço acrescido da parte destas para alcançarem resultados equivalentes aos dos homens, e mesmo assim a equivalência, neste caso, será sempre por defeito. 
Em relação a esta questão, pela parte que me toca, é especialmente ilustrativo o facto de Uma Outra Voz ser o único prémio Leya que falta publicar no Brasil. Por outro lado, o primeiro prémio Leya a ser distinguido também com o PEN não constitui, até à data, matéria de interesse suficiente para um destaque mais elaborado do que a simples notificação, junto dos meios de comunicação social."


A minha entrevista ao Diário Digital para ser lida na íntegra aqui:

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=797045




Monday, 26 October 2015

Carta para Luaty Beirão

Querido Luaty,
Estás em greve de fome há 36 dias. Tenho-os contado. Eu e tantos outros, pelo mundo fora. Os olhos do mundo estão postos em ti e nos teus camaradas. Por todo o lado estalam manifestações de solidariedade para com a vossa situação. Multiplicam-se as petições, os protestos. A vossa luta está a dar frutos e só por isso já é vitoriosa.

Estas palavras são de alguém que te admira muito e nutre um imenso respeito pela tua integridade e força de carácter. Por conseguinte, não pretendo demover-te do teu caminho nem convencer-te a alterar as tuas escolhas. Sei que tens recebido muitas solicitações para que acabes com a greve de fome. De alguma forma já deves estar cansado desse discurso. Eu, no entanto, apenas pretendo partilhar contigo as minhas reflexões. Serás livre de concordar, ou não, comigo.

Volto a frisar que tenho uma enorme admiração pela tua coragem e é com humildade que a ti me dirijo. O que estás a fazer é algo que muito poucos conseguiriam. Sei que não te consideras um líder ou um herói, mas tens a mesma determinação e poder de resistência que encontramos naquelas almas que conseguem mudar o mundo com pequenas (grandes) acções.

Aquilo que te quero dizer é o mesmo que dirias, tenho a certeza, a qualquer um que estivesse no teu lugar: a tua luta não pode acabar aqui. O país, o mundo, precisam de ti. Mantém-te vivo, irmão. As causas, grandes e pequenas, não foram feitas para se morrer por elas, mas para se lutar por elas. E para isso é imperativo estar-se vivo.

És um guerreiro, Luaty, dos verdadeiros: os que prescindem da violência e da força bruta. Porém, aquilo a que estás a submeter o teu próprio corpo é de uma violência extrema. E porque há-de a tua vida valer menos do que as vidas que pretendes salvar? O propósito maior da tua luta é defender a dignidade, o respeito pela vida humana. A tua vida tem forçosamente de estar incluída.
Um guerreiro sabe quando é preciso recuar, mudar de estratégia. Perder uma batalha não significa a derrota. Há valores por que vale a pena resistir até ao fim - vivo.

A tua morte não vai trazer nada de bom. A morte nunca traz nada de bom. As pessoas vão sentir-se revoltadas, o ódio e a raiva tomarão conta dos seus corações. A violência, a mesma que queres impedir, uma vez que tens insistido numa luta pacífica, terá todos os ingredientes para detonar. A raiva e o ódio são cegos, tu sabes disso. E as revoltas sangrentas alimentam-se deles.

A tua vida, sim, essa tem poder transformador. Já está a ter. O que conseguiste em pouco mais de um mês ninguém conseguiu em anos e anos de opressão. Isso já não volta atrás. Manteres-te vivo não significa ceder aos teus opressores, pois eles querem-te morto – vão deixar-te morrer, não restam dúvidas. Por conseguinte, na tua vida é que reside o desafio aos teus opressores. O valor da vida humana tem de representar o único compromisso de honra que interessa preservar, neste momento. Não faz sentido lutar por um mundo melhor, por melhores condições de vida, entregando a tua. Não faz sentido como princípio: a tua vida não pode ser menos importante do que qualquer outra. E, hoje, ela é mais preciosa do que nunca, para a luta que se avizinha. O teu corpo sabe disso. O teu corpo tem mostrado uma resistência extraordinária. As tuas células recusam-se a morrer, a abandonar a luta. Ouve o grito de resistência do teu corpo e mantém-te vivo. Força, companheiro.

Saturday, 26 September 2015

A perda de humanidade

Ontem assisti à conversa aberta que a Amnistia Internacional organizou sobre a situação dos jovens presos políticos em Angola (vídeo abaixo). E só me ocorre dizer: é incrível como a história se repete. É incrível como a cegueira é sempre a mesma.

 No debate intervieram alguns jovens angolanos, que estudam ou trabalham em Portugal, cujo discurso revelou, com alguma variedade, mais ou menos a mesma linha de pensamento: Angola é um país independente, não se deve interferir com os seus assuntos internos, isso é paternalismo e restos de colonialismo encapotado; deixem a justiça trabalhar, respeitem as diferenças culturais (que foram apontadas como desculpa para claras condições desumanas de atendimento ao público em alguns hospitais); e finalmente, quem somos nós (e a resto da comunidade internacional) para apontar o dedo a Angola, quando existem violações dos direitos humanos e corrupção à escala mundial.

 O que mais me impressionou no discurso destes jovens foi o facto de, nem por um segundo, transparecer das suas palavras o mínimo resquício de solidariedade, preocupação ou cuidado para com outros jovens que estão presos há meses, em condições precárias, sofrendo maus tratos e alguns em situações de degradação da sua saúde física e mental, sem que lhes sejam dispensados os cuidados necessários. Não houve uma única palavra, um único gesto, que denunciasse qualquer empatia e preocupação genuína pelo estado desses jovens.

 Particularmente comovente foi a intervenção da mulher de Luaty Beirão, um dos jovens detidos. Ela, que, como disse, não concorda com a forma de pensar do marido, em termos de actuação em relação às condições vividas em Angola, acabou por acordar para a realidade quando cerca de 50 agentes de segurança lhe entraram porta adentro apenas por ser mulher do detido e, para além do abuso de autoridade que representou a brutalidade com que a invasão à sua privacidade foi levada a cabo, viu confiscado todo o seu material de trabalho (material fotográfico) sem qualquer justificação. Como ela muito bem referiu, isto pode acontecer a qualquer pessoa. Às vezes podemos ser levados a pensar que não há fumo sem fogo; que se os jovens foram presos alguma razão houve para isso. Mas isso só denuncia a cegueira colectiva: aqueles jovens foram presos porque estavam a exercer um direito consagrado na constituição, que é o de se reunirem e organizarem uma manifestação. São presos políticos. A sua detenção é ilegal.

 Infelizmente, para muitos de nós, só quando sentimos na pele é que acordamos para a realidade. Vivemos nas nossas bolhas sem fazer ideia do que se passa à nossa volta, na casa do vizinho, no guetto ao fundo da rua, num país distante. Não fazemos a mais pequena ideia e nem fazemos questão disso. Assistimos à vaga de refugiados da devastação da guerra e o que vimos são oportunistas, até têm telemóveis e milhares de euros para pagar as travessias de barco, o que eles querem é vir para a Europa roubar o que é nosso. Ou terroristas. Seja o que for. Tudo vale, desde que não sejamos obrigados a olhar nos olhos dos outros e descobri-los seres humanos como nós.

Os jovens angolanos a viver em Portugal nas suas bolhas de conforto são disso um bom exemplo. Arranjam mil e uma justificações intelectuais para não terem de olhar os olhos dos jovens seus irmãos, presos por contestação ao regime. É que o risco de se colocarem no lugar deles é, quem sabe, demasiado assustador. A capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, a empatia, é, no entanto, aquilo que nos define como seres-humanos. Valores como a solidariedade, o respeito mútuo, o direito à dignidade, a fraternidade entre os povos, assentam na nossa capacidade empática. Quando recusamos colocar-nos no lugar do outro estamos a diminuir-nos como seres humanos. Quem perde somos nós.

Conversa Aberta sobre Angola, Direitos Humanos e Liberdade de Expressão


Monday, 7 September 2015

O que os olhos não vêem e o coração não sangra

Há pessoas que se recusam a olhar a fotografia do menino caído à beira-mar e de mais umas quantas vítimas mortais daquela que é considerada a maior vaga de refugiados desde a Segunda Grande Guerra. Não as condeno. A mim também me provocaram calafrios e uma tremenda angústia as imagens, desse e de tantos outros cadáveres que o mar deu à costa, e que proliferam pelas redes sociais. Mais, procuro compreender: olhar essas mortes, sabendo que foram provocadas por situações de violência levadas a cabo por outros seres-humanos, é, quem sabe, olhar também a culpa de pertencer a essa mesma humanidade, capaz de tais atrocidades. Ou o sentimento de impotência é de tal forma assustador que não conseguimos encarar, mais uma vez, a culpa de nada fazermos para impedir tal horror? As razões para tal recusa, decerto, serão tão diversas quantas as diferentes emoções que possam ser despertadas em cada um de nós pelas ditas imagens e não tenho a pretensão de conhecê-las melhor do que os próprios.

Acho, no entanto, que essas pessoas deviam, ao menos, ter noção do enorme privilégio que representa a sua escolha. As vítimas que não encaramos não tiveram escolha. O que tinham diante de si não era uma fotografia mas a vida real a acontecer. Tão-pouco os milhares de refugiados em fuga têm escolha. As populações que vivem em cenários de guerra, que presenciam tiroteios, explosões, assassinatos, chacinas, banhos de sangue, pura e simplesmente não se podem recusar a ver. Está a acontecer diante delas. O espectáculo da destruição massiva, do massacre humano, é terrível, é bárbaro, é uma agressão constante a toda a humanidade – e dentro dessa humanidade há um grupo que pode desligar o botão ou simplesmente olhar para o lado – não olhar – e outro, o dos envolvidos. Não é possível desligar os sentidos. Quem lá está assiste, quer queira quer não.

 Para nós, que podemos desligar, desviar o olhar, não ver, é apenas isso, uma questão de escolha. Uma escolha que é um enorme privilégio. Precisamos ter noção disso. E se calhar devíamos ter também outra noção: a de que, porventura, pessoas a quem é dado o imenso privilégio de escolher, deveriam optar conscientemente por olhar, por ver, ainda que engolindo as lágrimas, ainda que à custa de muita angústia e inquietação, ainda que tremendo por dentro. Encarar o horror exige um esforço descomunal, sim; mas se todos, sem excepção, não tivéssemos escolha, tal qual as vítimas desse mesmo horror; se as imagens nos entrassem porta adentro, todos os dias, sem que nada pudéssemos fazer para impedi-lo; se cada um de nós pudesse sentir na pele toda e qualquer agressão a cada ser-humano em particular, uma vez que a humanidade partilhada nos constituísse num só corpo, quem sabe isso não provocaria uma revolução; aquela que seria necessária para decretar tolerância zero em relação à violência extrema de situações como esta.

 Some people refuse looking at the photograph portraying a dead child on the shore and many others of deceased victims from what has been considered as the worst refugee crisis since the Second World War. I don’t condemn them. Personally I too shivered and felt enormous anguish watching those images of several corpses brought by sea tides; images that have gone viral on social networks. Furthermore, I try to understand: to face those deaths, knowing that they were caused by extreme violence perpetrated by human beings is, perhaps, like facing our own guilt of belonging to the same human race capable of such atrocities. Or maybe the feeling of impotence is so frightening that leave us incapable of facing, once more, the guilt of doing nothing to prevent the horror? The reasons for such refuse, however, will be as many as every different emotion that those images may awake in every single individual and I don’t presume to know them all any better than the people themselves.

Nevertheless, I think that those people ought to bear in mind the notion of the privilege that their chance of choice represents. The victims who we refuse to face didn’t have a choice. What was before them wasn’t a photograph but life itself. Neither the thousands of refugees have a choice. Populations who live in war scenarios, who endure shootings, explosions, murders, slaughter, bloodbath and the sort, cannot simply refuse themselves to see. It’s all happening before them. Massive destruction and human massacre is a horrendous, barbaric spectacle and represents a constant aggression towards humanity in general – though, inside that humanity there’s a group of people who can turn off the button or simply looking elsewhere, and another group, that of the people involved in the tragedy. Senses cannot be unplugged. Whoever is there is forced to look, liking it or not.

For those like us who can unplug, divert our eyes and not look, it’s simply a matter of choice. A tremendous privilege. We must be aware of that. And maybe we should also be aware of something else: that people who are given the privilege of choice should, perhaps, choose consciously to look, to see, even through swallowing tears, dreadful anguish, uneasiness and shivers. To face the horror demands a devastating effort, for sure, but what if everybody on earth, like the horror’s victims, had no choice? What if those images we refuse to see crossed our threshold everyday and we could do nothing to avoid it? What if each one of us could feel on their own skin every single bit of aggression towards every single human being on earth, given that the wholeness of humanity would allow us to share only one universal body? That might, who knows, trigger the revolution we need to decree zero tolerance to extreme violence.

Thursday, 7 May 2015

O Ano Em Que Zumbi Tomou O Rio, de José Eduardo Agualusa

Um pequeno (grande) homem que morre e ressuscita, e que vive no desejo de se libertar do peso do corpo. Ele vai ser testemunha de um acontecimento histórico importantíssimo. As suas palavras levarão ao resto do mundo (esta parte imaginei; na verdade ele apenas escreve para um jornal português) o seu olhar sempre atento e perspicaz sobre a maior revolta negra na história do Brasil, desde a escravatura. Mas esta não é uma revolta só dos negros. É a revolta de todos os que vivem marginalizados no seu próprio país, de todos os que habitam o submundo das favelas brasileiras e não têm hipótese de se libertar da austera estigmatização social, numa sociedade onde não existe lugar para eles, numa sociedade que, paradoxalmente, não se considera racista nem preconceituosa. Uma mulher triste e solitária, que se diverte a atormentar os homens com as suas obras de arte pouco convencionais sobre a natureza feminina, e que abre a porta para um desconhecido no meio da noite; a porta da rua e a do coração, começando assim uma "estranha estória de amor". Um homem que em tempos trabalhou para o Ministério da Segurança de Estado de Angola, e vive na tentativa desesperada de fugir da própria memória e dos velhos fantasmas que a habitam, vende armas aos traficantes das favelas. Um velho delegado de polícia, honesto, inimigo da corrupção, que a tudo assiste, impotente, sem poder fazer nada contra a escalada sucessiva de violência, e que no fim decide pegar nas armas, disposto a dar o seu sangue numa guerra perdida mas que já é sua. Um outro homem, traficante, um bandido com preocupações sociais e alguma consciência política, que começa uma revolução. Ele decide parar de pagar a cumplicidade aos policiais corruptos que assim fecham os olhos ao negócio do tráfico. E é a partir desta decisão que os acontecimentos se vão suceder, numa espiral incontrolável. É a história desta revolução, que desce das favelas ao asfalto, que é contada neste livro. Uma batalha que, mesmo derrotada, será uma vitória. E que deixará marcas na memória e estrutura sociais do país.

Wednesday, 8 April 2015

O Outro Pé Da Sereia, de Mia Couto

"A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do último lugar onde podemos ter casa" 

Mia Couto cria estórias de encantar. E, através das suas estórias, dá-nos uma importante lição de história. A história de um povo não é mais do que o encontro das suas memórias. E, quando essas memórias se perdem, quando as pessoas abandonam a própria memória para sobreviver, a história queda-se, perdida, entre abismos e fantasmas.

Este é um livro de viagens dentro da história de cada personagem. Para recuperar as memórias perdidas, é preciso viajar até ao interior de nós próprios, ao passado, à nossa própria história. Assim, uma mulher que se isolara para esquecer volta à sua terra natal, e ao seu passado. Ela terá de enterrar os seus mortos, que permaneciam vivos, na parede eterna onde os seus rostos a olhavam das molduras do antigamente. Mas esta viagem vai mais fundo, ela faz o tempo sair da calha da razão, e agitar-se no céu como uma ave subitamente liberta. E os acontecimentos sucedem-se em catadupa. Terão os habitantes de Vila Longe ressuscistado da sua memória, ou permaneceram vivos durante todo esse tempo de ausência, no meio dos escombros e ruínas da antiga vila? Terá o velho barbeiro enlouquecido, ou terá razão, quando diz que os dois estrangeiros acabados de chegar são dois espiões enviados pelo governo americano? Terá sido uma estrela que despencou do céu, como afiança o seu marido, ou terá sido uma aeronave utilizada pelos serviços secretos? Será esta mulher realmente visitada pelos espíritos dos antepassados, ou está apenas a fingir e a debitar tudo o que lê nos antigos escritos de D. Gonçalo da Silveira, encontrados dentro de um baú, juntamente com a estátua da Virgem Maria, nas margens do rio? Será realmente a Santa que conduz esta viagem, ou melhor, Kianda, a deusa das águas, eternamente em busca do seu elemento primitivo, que os homens, ignorantes da sua verdadeira identidade, lhe negam? São os deuses que criam e conduzem os homens, ou são os homens que criam e veneram os deuses?

Ao mesmo tempo, acompanhamos a viagem da nau Nossa Senhora da Ajuda, uma viagem missionária com destino a Moçambique, no ano de 1560. Nas naus que integram a comitiva vão D. Gonçalo da Silveira, jesuíta na Índia Portuguesa, o padre Manuel Antunes, o escravo Nimi Nsundi, a escrava indiana Dia Kumari, funcionários do reino, deportados e outros escravos, e a estátua de Nossa Senhora, benzida pelo papa, considerado o "símbolo maior daquela peregrinação". É nesta viagem que a Santa perde um dos pés, dando início assim à viagem inexorável de cada um destes personagens na descoberta do caminho marítimo para o continente da sua própria natureza, alma e história. No fim desta viagem, a mulher reune os restos do seu passado e enterra definitivamente os seus mortos. E, finalmente, encontra um lugar onde Kianda, a deusa das águas, pode enfim descansar e reencontrar a sua natureza. E, desta maneira, a história retomará o seu rumo, que mora afinal no coração e na memória dos homens...

Monday, 16 February 2015

O Último Natal

A mulher olha a árvore de natal em silêncio.

O marido está morto há muito; os filhos, num país distante. Ou terá sido ela que se ausentou para parte incerta, não tem a certeza.

As velas com aroma a canela e tangerina luzem na solidão da mesa posta. Quatro pratos dispostos geometricamente, os copos altos em que a luz sanguínea de um Porto velho arde juntamente com as velas. O fumo dança no silêncio que se abate nos pratos vazios.

A fruta na cristaleira adquire tons de ébano.

Os minutos escorrem, vagarosos. Da casa vizinha chega-lhe o burburinho de vozes, garfos e facas em laborioso fragor, gargalhadas a espaços com o tilintar dos copos que ela adivinha de pé alto, elegantes, reluzindo a textura suave dos vinhos espumantes.

E de súbito está à volta da mesa, na casa dos avós, acompanhada por aqueles que tão bem conhece, metade já mortos, mas ainda a sorrirem-lhe do espelho da memória. O espelho falso, mentiroso, da memória.

Podia começar tudo de novo, pensa, enquanto se deixa inebriar pelo brilho das luzes. Por que raio montou, afinal, o pinheiro?

Fecha os olhos e deseja com muita força ter nascido outra pessoa. Se desejares com muita força, as coisas acabam por acontecer, diziam-lhe em criança. Mas tens de desejar com a alma. E quem não tem alma? Pede uma emprestada?

Pergunta estúpida. A mulher levanta-se e vai até à porta. Com gestos lentos, veste o casaco e tapa a cabeça e o pescoço no aconchego da lã. Lá fora a neve cai silenciosa.

Em casa deixa o silêncio nos pratos vazios.

A noite está deserta. Das janelas vislumbra o incêndio dos pinheiros artificiais. Ao chegar ao fim da rua, começa a subir a colina, em direcção ao parque. No cimo, o coração é uma dor vermelha, a pulsar-lhe dentro de um glaciar. Acaba por se deixar cair junto a um carvalho. A dor segue-se à sensação de dormência. Sabe, todavia, que durará apenas alguns minutos. Quando a manhã trouxer as gargalhadas das crianças, quem sabe não a confundem com um boneco de neve? E é com este pensamento que fecha os olhos.

(conto publicado na Revista Sábado de 23 de Dezembro de 2014)

Sunday, 8 February 2015

We should all be feminists, by Chimamanda Ngozi Adichie



Também na literatura homens e mulheres são lidos com diferentes olhos. Quando um homem escreve uma estória de amor, por exemplo, impressiona, demonstra que é inteligente e sensível, sendo este último atributo considerado fora do mundo da masculinidade. Quando uma mulher escreve sobre o mesmo tema, está a fazer apenas aquilo que se espera dela, e, por isso, não impressiona ninguém. Para o conseguir terá de fazer um esforço acrescido para demonstrar que é inteligente e culta, para além de sensível e emotiva. Há pouco tempo, por altura do aniversário de Chico Buarque de Holanda (que eu adoro, note-se), muito se falou do seu sucesso como cantor, compositor e poeta, e o que se ouvia andava quase sempre à volta dos mesmos comentários: a forma única e brilhante como ele consegue descrever os sentimentos de uma mulher. E agora pergunto eu: se aquelas letras fossem escritas por uma mulher, teriam por acaso menos valor? Definitivamente acho que não, mas tenho para mim que se esse fosse o caso ninguém lhe ligava nenhuma! Afinal não é nada de extraordinário uma mulher escrever sobre o amor, as emoções, os afectos, numa perspectiva feminina; o que é extraordinário é um homem, um desses seres analfabetos-emocionais, o conseguir. Esta linha de raciocínio é trágica, quanto a mim, e ofensiva para os homens (e para as mulheres também, como bem me fez notar a Rita Duarte, numa conversa há pouco tempo onde tive oportunidade de expor esta minha opinião, pois as mulheres, tal como os homens, também são seres racionais, como ela muito bem referiu). Enfim, isto tudo a propósito da palestra da Chimamanda Ngozi Adichie, que é espectacular, como sempre.


Also in literature, men and women are read with different eyes. When a man writes a love story, it's impressive: he's showing he's intelligent and sensitive, although this last is regarded as an outsider in the masculine world. When a woman writes the same story, she's only doing what is expected from her, thus cannot impress anyone. To be impressive she would have to make a real effort to show she's as intelligent and educated as she is sensitive and emotional. Some months ago, when Brazilian musician and composer Chico Buarque de Holanda celebrated his birthday (and note that I love his songs), his success as an artist was vastly talked over and over, and almost every comment was made upon his unusual and brilliant talent to describe women's feelings. But let me ask, though: if those lyrics were to be written by a woman, would that have made them less worthy? Surely not, but I think that if this was the case nobody would give her any attention! After all, it's anything but extraordinary a woman writing about love and emotions in a feminine perspective. On the other hand, surely extraordinary is a man, one of those emotionally-illiterate beings, being able to do that. This line of thought is tragic, as I am concerned, and offensive to men (and also to women, as Rita Duarte very well pointed out during a conversation we had not long ago, because women are, as men, rational beings). Anyway, all these thoughts came about Chimamanda Adichie's TED talk, which is amazing as usual.



Friday, 6 February 2015

Grandes Males, Grandes Remédios

Quando descasco e pico cebola, ultimamente, noto que os olhos já não ardem tanto. Não sei se é impressão minha, mas lembro-me de quando chorava baba e ranho com a mesma actividade. Uma vez ou outra lá acontece e então começo a desconfiar de que há várias qualidades de cebola, consoante o potencial lacrimejante. Aliás, lembro-me de ter ouvido ou lido, na televisão ou no jornal, que a investigação em modificação genética iria proporcionar, em alguns anos, um descascar de cebola isento de lágrimas. Foram estes pensamentos que me trouxeram o mote para esta estória.

Dona Mínima vivia lá nos fundinhos dos campos, muito depois de se atravessar o ribeiro e de a estrada de terra se perder em carreiros de mal traçados pés. Vivia numa casa de pedra, de idade desconhecida, que parecia ter nascido da terra como as árvores e os sonhos. As paredes confundindo-se com as rochas, convertidas em sagrados monumentos graníticos.

Para lá chegar, tinham de se percorrer caminhos incertos, no meio dos vales, trilhos de pedras onde as raízes das árvores nos faziam tropeçar. Havia quem dissesse que era preciso olhar bem o chão que se pisava, pois às vezes das raízes, que tinham o tamanho de braços, podiam brotar mãos súbitas e ávidas que agarravam os tornozelos de quem passava, e assim os engoliam para as entranhas da terra. Mas deviam ser boatos.

Dona Mínima ocultara-se das vistas de toda a gente para assim exercer melhor a sua profissão. Era uma mulher muito competente e tratava de todas as maleitas da alma. É certo e sabido que estes assuntos exigem intimidade absoluta, que só aquela morada, confundida com o próprio coração da terra, podia proporcionar.

A sua fama era galopante, e nas redondezas não se conhecia ninguém que nunca a tivesse procurado para curar um mal de amores, avareza ou melancolia. Mas não se ficava por aqui: Dona Mínima era conhecida praticamente em todos os cantos do País. As pessoas vinham de muito longe, às vezes percorriam centenas de quilómetros, só para ouvir os seus conselhos. E não era apenas gente anónima que a procurava: da capital vinham muitos ministros e secretários de estado, grandes empresários, homens de negócios, empreendedores. Dona Mínima era máxima em contactos de alta envergadura.
Aliás, de mínima, para além do nome, ela só tinha o tamanho. Conta-se até que fora esse o motivo de tão estranho baptismo. Já em criança ela diminuía em altura, e de lá para cá crescera tão pouco que às vezes dava a impressão de ser ainda uma criança. Só as rugas lhe davam a razão da sua inteira idade. E mesmo essa era um mistério para todos.

Dona Mínima era muito procurada por problemas de solidão e tristeza. Não era de espantar, pois naquele lugar o mundo já se divorciara havia muito de si mesmo, e a vida sobrava em horas, quando não de aflição ou desgraça, de tédio e aborrecimento. Poucas pessoas habitavam a aldeia, e pouco tinham de seu; a terra secava devido à falta de água e a cada vez menos braços para a amanhar. Como se isso não bastasse, a natureza pervertera o ritmo das estações. A anos de seca sucediam-se invernos tão chuvosos que tudo o que começava a romper rapidamente apodrecia e não vingava. A água, antes escassa e desejada, tornava-se em poucos dias fonte da desgraça. E novamente vinha a seca. Nos últimos verões os incêndios sucediam-se: a terra enlouquecida, as chamas subindo aos céus numa fúria dantesca. As populações faziam o que podiam para proteger bens, casas e sementeiras, mas em vão: o fogo um gigante com a fúria de um vendaval, os poucos braços disponíveis para o combater nunca suficientes. Para mais, ninguém parecia entender como podiam começar dois ou três fogos ao mesmo tempo, em sítios opostos, parecia até coisa do diabo, que Deus nos proteja.

A vida era dura, e a tristeza, muita. Por isso Dona Mínima receitava amiúde o seu mais famoso remédio: a cebola. A cebola tem o poder de lavar a alma, limpando-a de todas as impurezas e miudezas daninhas. Bastavam alguns bocadinhos de cebola nos olhos de quem andava consumido por mágoas, e o resultado era espantoso: a torrente de lágrimas arrastava tristeza, melancolia, apatia. Mas o tratamento não ficava por aqui: a cebola era esmagada num almofariz e o seu suco igualmente despejado nos olhos do paciente, o que aumentava o lacrimejo e produzia espasmos e soluços. Dito de forma prosaica, fazia as pessoas chorarem baba e ranho.

Depois de alguns dias de tratamento intensivo (a duração dependia da gravidade dos casos, como é evidente), as melhoras eram visíveis. O riso adquiria novas tonalidades e o peito expandia-se. Como já não encontrava obstáculos no seu caminho (a antiga raiva e tristeza acumuladas, que, como sabemos, é no peito e coração que germinam), o ar podia circular à vontade e assim aquecer o sangue com o poder da oxigenação – o maravilhoso fenómeno químico que nos dá a possibilidade não só de respirar, mas também de inflamar. A respiração, afinal, mais não é do que uma combustão – sem chama. Ou melhor, a chama está lá – é o fogo que nos anima e alimenta, circulando nas veias e artérias, sempre direito ao coração.

 O tratamento, recomendado para todas as idades e géneros, nunca falhava. O segredo estava na cebola – o fruto mágico e sagrado da terra. Aliás, segundo Dona Mínima, terá sido com uma cebola que Eva tentou Adão. E foram as lágrimas – o dilúvio das lágrimas – que expulsaram o primeiro homem e a primeira mulher do Paraíso. Pois não há maior sabedoria do que aquela que se esconde atrás do sofrimento, sempre defenderam os sábios e deprimidos da vida. Dona Mínima, contudo, discorda: não é o sofrimento que traz a sabedoria, e sim o choro. Porque é que os bebés choram quando vêm ao mundo? O choro é a primeira linguagem da humanidade, muito antes do riso e da palavra. O choro liberta as tensões e os nós das angústias, dilata o peito e aquece o coração. Abre-lhe os canais privilegiados para a fluidez da sabedoria. É esta a versão de Dona Mínima, Dona Máxima em sapiência.

Um dia, porém, aconteceu um imprevisto. Veio uma mulher procurar os seus serviços. Era velha, esta mulher. Ou melhor, estancara-se na idade. Quem envelhece conserva o entusiasmo da juventude. Quem se estanca na idade não consegue envelhecer, rejeita a pegada do tempo, o despontar da ruga, o retardar do corpo – mirra, enfraquece, definha. Na maioria dos casos, este processo é confundido com o envelhecimento natural, no entanto é completamente diferente. O que acontece é que cada vez vemos menos velhos e mais estancados na idade, e acabamos por confundir uns com os outros.

Dona Mínima conhecia a mulher. Sempre vivera na aldeia. O marido morrera numa guerra longínqua num continente longínquo. O filho crescera sem pai. A mãe tivera de crescer sem o pai do seu filho. E para apagar a dor, quem sabe, plantara a criança num canteiro e regara-a anos a fio, sempre a verter água em abundância para que a pobre planta não morresse de sede. Mas a planta era um menino. Planta sem estufa. E em lugar de raízes tinha pés, ávidos de conhecer o mundo.

Era a mãe que se regava (e prolongava) no filho: naquela pequena planta crescia a sua solidão e viuvez prematura, carentes de água. À força de regá-la, a mulher ia-se enraizando no chão, como as árvores centenárias. As suas dores centenárias. E a criança germinava, pregada à terra, ao lume daquela dor, planta órfã, sem semente que a levasse no vento nem tronco onde se encostasse sentimento.

O filho partiria, muitos anos depois, jovem e aventureiro, ela ficara. Para sempre insistindo em regar a planta, mesmo depois de arrancada à terra. Construiu um jardim. De mágoas. Cada flor uma pequenina boca carnívora mordendo-lhe o coração.

Ora esta mulher sofria agora de um estado de tristeza catatónico, e era incapaz de chorar, por mais cebola que Dona Mínima despejasse nos seus globos oculares. Tentou de tudo. Ela própria cultivava as cebolas, pois tinham de ser das boas, rijas, dessas de fazer chorar as tripas. Agora há para aí umas cebolas criadas em estufas que já não fazem chorar como deve ser, praguejava. Pois bem, parecia que era uma dessas cebolas deslavadas que Dona Mínima colocava nos olhos da mulher.

A mulher, além de se estancar na idade, estancava também o choro.

«O coração da comadre está em pedra. É preciso amolecê-lo.»

Dona Mínima adivinhava o motivo daquela secura. Só chora quem tem dentro de si o rio navegável da tristeza. Quem a cristalizou dentro de si, porém, secou o rio, até ao osso.

Para chorar é preciso lágrimas. Para navegar é preciso remos. E nos braços, a força dos remos.
Mas onde estavam as lágrimas daquela mulher?

Dona Mínima adivinhava: dias a fio, à chuva e ao sol, a mulher regara; primeiro, a sua planta órfã; depois, o seu jardim de lamentos. Fora a água das suas lágrimas, esses anos todos.

Dona Mínima sabia o que fazer. Havia que devolver o rio ao seu leito. A dor ao seu peito. E só uma pessoa podia fazê-lo.

O filho partira há trinta anos, e nunca dera notícias. Dona Mínima sentia aquele pedregulho no coração da mulher: pior do que perder um filho, é jamais deixá-lo ir. Jamais vê-lo nascer.

Pior do que perder um filho é ter de regá-lo todos os dias, à chuva e ao sol, para que ele ganhe raízes onde não inventa asas. Vê-lo definhar na terra. Ficar sem chão. E buscá-lo na solidão.

Dona Mínima desconfiava dessa prolongada ausência de notícias. Das três apenas uma: ou o homem se dera muito mal e morria de medo, ou se dera muito bem e morria de vergonha, ou as duas coisas (morria de medo e de vergonha de voltar).

Dona Mínima conhecia muita gente, de outros territórios e outros mundos. Puxou e repuxou cordas e cordelinhos, e rapidamente ficou a saber o que pretendia.

O homem engordara corpo e dinheiros. Arrotava, aliás, dinheiro: negócios mais do que escuros. Na fachada, uma limpeza imaculada: um posto importante num ministério, dedos recheados de anéis e poder, uma casa do tamanho de um palácio e várias outras em exóticas estâncias balneares, uma colecção de automóveis topo de gama, várias contas bancárias, e um cinto a rebentar pelas costuras.
Dona Mínima não perdeu tempo: mandou uma mensagem fulminante via correio interno de funcionários de variadíssimos estados e respectivos amigos, que correu de boca em boca: Venha depressa. Sua excelentíssima mãe está a morrer.

Apesar de nunca ter dado notícias em trinta anos, o homem não esquecera a mãe. Lá no fundo de si, temia aquele encontro. Dona Mínima acertara em cheio: morria de vergonha. Vergonha de ter fugido. Não sabia porque o fizera, nem porque o caminho de volta a casa sempre se lhe afigurava tão penoso e irrespirável.

A notícia de que ela estava a morrer, contudo, deu-lhe um terror sem tamanho. E voltou. Tinha de voltar. Era o medo que conduzia os seus passos. Quando parou o carro à porta de casa (um Mercedes último modelo com ar condicionado, piloto automático, televisão e consola de jogos a bordo), estremeceu. Aquele lugar não tinha mudado. Estava igualzinho ao que se lembrava. Estranhamente, os seus olhos é que já não conseguiam ver as coisas do mesmo tamanho. Parecia que estava diante da miniatura de tudo o que se lembrava de existir. Só as árvores eram maiores do que o mundo. Pareciam ter-se alimentado do seu medo.

Indiferente aos olhares curiosos que o espreitavam da porta (uma multidão de crianças acorrera ao barulho do carro, coisa rara ali) penetrou nas sombras da casa e avançou até ao quarto. Muito devagar, começou a distinguir o vulto da cama, o branco dos lençóis, a figura da mãe deitada (quase irreconhecível, meu Deus...) e uma velha senhora muito pequena, do tamanho de uma criança, sentada ao lado da cama. O cheiro a cebola picava nas narinas, e da janela entreaberta corria uma brisa morna, que inundava o quarto com o odor da terra ressequida ao sol.

A mãe olhou-o sem acreditar. A pele à volta dos seus olhos estava morta, calcinada. Dona Mínima amparou-lhe o gesto de se erguer na cama.

«Filho...»

Apenas um fio de voz, restos de sede na secura da terra. Quis dizer-lhe o nome e a boca não desenhou as palavras.

Quis depois sorrir-lhe e ficou estancada no espanto. Não lhe encontrava os olhos. Estavam escondidos atrás das lentes espelhadas de uns óculos estupidamente grossos. A mulher abriu a boca e desta vez não saiu som algum.

O homem continuava pasmado no frio que lhe crescia na barriga. Não se atrevera a encarar o olhar da mãe, aquele olhar que adivinhava acusador. Engoliu em seco e só foi capaz de dizer, tão baixinho que mal se ouviu:

«Mãe?»

Ela não respondeu. Procurava o bebé que nadara no seu ventre, a criança que brincara, nua e descalça, no terreiro lá fora, o rapaz decidido que partira sem olhar para trás, e não o encontrava. Cravou os olhos avidamente secos no corpo imenso daquele homem: percorreu-lhe o cabelo, cheirou-o, espreitou-lhe os dentes, deteve-se nos ombros e nos braços – quase lhe tocou o peito – sentiu-lhe a gordura no ventre, em vão: o olhar não pegava, não segurava, não beijava. Aquele não era o seu filho; nunca fora sequer a pobre planta que ela regara com tanto desespero e tão pouco alento. 

Pior do que perder um filho é nunca poder encontrá-lo. Encará-lo. Enxergá-lo.

O homem continuava parado. A boca do estômago ardendo em labaredas frias.

E então aconteceu um milagre: uma humidadezita à beira das pestanas, depois uma gota de água que correu cara abaixo –, e inundava as chagas da terra com a carícia da chuva tão esperada – e finalmente o mar inteiro jorrando dos olhos da mulher, aqueles olhos que tinham perdido o brilho e a sede. E ela chorou, chorou, chorou, derramou a alma, espezinhou lamentos, até o lençol ficar húmido e o ranho lhe pingar do nariz com a força das lágrimas. Até engolir no sal o sumo do seu desgosto.

Recuperou a saúde, recuperou a idade, diz-se até que recuperou o riso. E ainda o enterrou, àquele filho que nunca encontrou, e que enfartou de tanto abarrotar de comida, dinheiro e enganos.

Pior do que perder um filho, é nunca o dar à luz. Nem ao vento. Nem à água.

Pior do que perder um filho, é perder-lhe o caminho, é prender-lhe o destino.


(conto publicado na Revista Ler de Dezembro de 2014, com uma belíssima ilustração de Pedro Vieira)