© Gabriela Ruivo Trindade

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Wednesday, 8 April 2015

O Outro Pé Da Sereia, de Mia Couto

"A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do último lugar onde podemos ter casa" 

Mia Couto cria estórias de encantar. E, através das suas estórias, dá-nos uma importante lição de história. A história de um povo não é mais do que o encontro das suas memórias. E, quando essas memórias se perdem, quando as pessoas abandonam a própria memória para sobreviver, a história queda-se, perdida, entre abismos e fantasmas.

Este é um livro de viagens dentro da história de cada personagem. Para recuperar as memórias perdidas, é preciso viajar até ao interior de nós próprios, ao passado, à nossa própria história. Assim, uma mulher que se isolara para esquecer volta à sua terra natal, e ao seu passado. Ela terá de enterrar os seus mortos, que permaneciam vivos, na parede eterna onde os seus rostos a olhavam das molduras do antigamente. Mas esta viagem vai mais fundo, ela faz o tempo sair da calha da razão, e agitar-se no céu como uma ave subitamente liberta. E os acontecimentos sucedem-se em catadupa. Terão os habitantes de Vila Longe ressuscistado da sua memória, ou permaneceram vivos durante todo esse tempo de ausência, no meio dos escombros e ruínas da antiga vila? Terá o velho barbeiro enlouquecido, ou terá razão, quando diz que os dois estrangeiros acabados de chegar são dois espiões enviados pelo governo americano? Terá sido uma estrela que despencou do céu, como afiança o seu marido, ou terá sido uma aeronave utilizada pelos serviços secretos? Será esta mulher realmente visitada pelos espíritos dos antepassados, ou está apenas a fingir e a debitar tudo o que lê nos antigos escritos de D. Gonçalo da Silveira, encontrados dentro de um baú, juntamente com a estátua da Virgem Maria, nas margens do rio? Será realmente a Santa que conduz esta viagem, ou melhor, Kianda, a deusa das águas, eternamente em busca do seu elemento primitivo, que os homens, ignorantes da sua verdadeira identidade, lhe negam? São os deuses que criam e conduzem os homens, ou são os homens que criam e veneram os deuses?

Ao mesmo tempo, acompanhamos a viagem da nau Nossa Senhora da Ajuda, uma viagem missionária com destino a Moçambique, no ano de 1560. Nas naus que integram a comitiva vão D. Gonçalo da Silveira, jesuíta na Índia Portuguesa, o padre Manuel Antunes, o escravo Nimi Nsundi, a escrava indiana Dia Kumari, funcionários do reino, deportados e outros escravos, e a estátua de Nossa Senhora, benzida pelo papa, considerado o "símbolo maior daquela peregrinação". É nesta viagem que a Santa perde um dos pés, dando início assim à viagem inexorável de cada um destes personagens na descoberta do caminho marítimo para o continente da sua própria natureza, alma e história. No fim desta viagem, a mulher reune os restos do seu passado e enterra definitivamente os seus mortos. E, finalmente, encontra um lugar onde Kianda, a deusa das águas, pode enfim descansar e reencontrar a sua natureza. E, desta maneira, a história retomará o seu rumo, que mora afinal no coração e na memória dos homens...