© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Saturday, 26 September 2015

A perda de humanidade

Ontem assisti à conversa aberta que a Amnistia Internacional organizou sobre a situação dos jovens presos políticos em Angola (vídeo abaixo). E só me ocorre dizer: é incrível como a história se repete. É incrível como a cegueira é sempre a mesma.

 No debate intervieram alguns jovens angolanos, que estudam ou trabalham em Portugal, cujo discurso revelou, com alguma variedade, mais ou menos a mesma linha de pensamento: Angola é um país independente, não se deve interferir com os seus assuntos internos, isso é paternalismo e restos de colonialismo encapotado; deixem a justiça trabalhar, respeitem as diferenças culturais (que foram apontadas como desculpa para claras condições desumanas de atendimento ao público em alguns hospitais); e finalmente, quem somos nós (e a resto da comunidade internacional) para apontar o dedo a Angola, quando existem violações dos direitos humanos e corrupção à escala mundial.

 O que mais me impressionou no discurso destes jovens foi o facto de, nem por um segundo, transparecer das suas palavras o mínimo resquício de solidariedade, preocupação ou cuidado para com outros jovens que estão presos há meses, em condições precárias, sofrendo maus tratos e alguns em situações de degradação da sua saúde física e mental, sem que lhes sejam dispensados os cuidados necessários. Não houve uma única palavra, um único gesto, que denunciasse qualquer empatia e preocupação genuína pelo estado desses jovens.

 Particularmente comovente foi a intervenção da mulher de Luaty Beirão, um dos jovens detidos. Ela, que, como disse, não concorda com a forma de pensar do marido, em termos de actuação em relação às condições vividas em Angola, acabou por acordar para a realidade quando cerca de 50 agentes de segurança lhe entraram porta adentro apenas por ser mulher do detido e, para além do abuso de autoridade que representou a brutalidade com que a invasão à sua privacidade foi levada a cabo, viu confiscado todo o seu material de trabalho (material fotográfico) sem qualquer justificação. Como ela muito bem referiu, isto pode acontecer a qualquer pessoa. Às vezes podemos ser levados a pensar que não há fumo sem fogo; que se os jovens foram presos alguma razão houve para isso. Mas isso só denuncia a cegueira colectiva: aqueles jovens foram presos porque estavam a exercer um direito consagrado na constituição, que é o de se reunirem e organizarem uma manifestação. São presos políticos. A sua detenção é ilegal.

 Infelizmente, para muitos de nós, só quando sentimos na pele é que acordamos para a realidade. Vivemos nas nossas bolhas sem fazer ideia do que se passa à nossa volta, na casa do vizinho, no guetto ao fundo da rua, num país distante. Não fazemos a mais pequena ideia e nem fazemos questão disso. Assistimos à vaga de refugiados da devastação da guerra e o que vimos são oportunistas, até têm telemóveis e milhares de euros para pagar as travessias de barco, o que eles querem é vir para a Europa roubar o que é nosso. Ou terroristas. Seja o que for. Tudo vale, desde que não sejamos obrigados a olhar nos olhos dos outros e descobri-los seres humanos como nós.

Os jovens angolanos a viver em Portugal nas suas bolhas de conforto são disso um bom exemplo. Arranjam mil e uma justificações intelectuais para não terem de olhar os olhos dos jovens seus irmãos, presos por contestação ao regime. É que o risco de se colocarem no lugar deles é, quem sabe, demasiado assustador. A capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, a empatia, é, no entanto, aquilo que nos define como seres-humanos. Valores como a solidariedade, o respeito mútuo, o direito à dignidade, a fraternidade entre os povos, assentam na nossa capacidade empática. Quando recusamos colocar-nos no lugar do outro estamos a diminuir-nos como seres humanos. Quem perde somos nós.

Conversa Aberta sobre Angola, Direitos Humanos e Liberdade de Expressão


Monday, 7 September 2015

O que os olhos não vêem e o coração não sangra

Há pessoas que se recusam a olhar a fotografia do menino caído à beira-mar e de mais umas quantas vítimas mortais daquela que é considerada a maior vaga de refugiados desde a Segunda Grande Guerra. Não as condeno. A mim também me provocaram calafrios e uma tremenda angústia as imagens, desse e de tantos outros cadáveres que o mar deu à costa, e que proliferam pelas redes sociais. Mais, procuro compreender: olhar essas mortes, sabendo que foram provocadas por situações de violência levadas a cabo por outros seres-humanos, é, quem sabe, olhar também a culpa de pertencer a essa mesma humanidade, capaz de tais atrocidades. Ou o sentimento de impotência é de tal forma assustador que não conseguimos encarar, mais uma vez, a culpa de nada fazermos para impedir tal horror? As razões para tal recusa, decerto, serão tão diversas quantas as diferentes emoções que possam ser despertadas em cada um de nós pelas ditas imagens e não tenho a pretensão de conhecê-las melhor do que os próprios.

Acho, no entanto, que essas pessoas deviam, ao menos, ter noção do enorme privilégio que representa a sua escolha. As vítimas que não encaramos não tiveram escolha. O que tinham diante de si não era uma fotografia mas a vida real a acontecer. Tão-pouco os milhares de refugiados em fuga têm escolha. As populações que vivem em cenários de guerra, que presenciam tiroteios, explosões, assassinatos, chacinas, banhos de sangue, pura e simplesmente não se podem recusar a ver. Está a acontecer diante delas. O espectáculo da destruição massiva, do massacre humano, é terrível, é bárbaro, é uma agressão constante a toda a humanidade – e dentro dessa humanidade há um grupo que pode desligar o botão ou simplesmente olhar para o lado – não olhar – e outro, o dos envolvidos. Não é possível desligar os sentidos. Quem lá está assiste, quer queira quer não.

 Para nós, que podemos desligar, desviar o olhar, não ver, é apenas isso, uma questão de escolha. Uma escolha que é um enorme privilégio. Precisamos ter noção disso. E se calhar devíamos ter também outra noção: a de que, porventura, pessoas a quem é dado o imenso privilégio de escolher, deveriam optar conscientemente por olhar, por ver, ainda que engolindo as lágrimas, ainda que à custa de muita angústia e inquietação, ainda que tremendo por dentro. Encarar o horror exige um esforço descomunal, sim; mas se todos, sem excepção, não tivéssemos escolha, tal qual as vítimas desse mesmo horror; se as imagens nos entrassem porta adentro, todos os dias, sem que nada pudéssemos fazer para impedi-lo; se cada um de nós pudesse sentir na pele toda e qualquer agressão a cada ser-humano em particular, uma vez que a humanidade partilhada nos constituísse num só corpo, quem sabe isso não provocaria uma revolução; aquela que seria necessária para decretar tolerância zero em relação à violência extrema de situações como esta.

 Some people refuse looking at the photograph portraying a dead child on the shore and many others of deceased victims from what has been considered as the worst refugee crisis since the Second World War. I don’t condemn them. Personally I too shivered and felt enormous anguish watching those images of several corpses brought by sea tides; images that have gone viral on social networks. Furthermore, I try to understand: to face those deaths, knowing that they were caused by extreme violence perpetrated by human beings is, perhaps, like facing our own guilt of belonging to the same human race capable of such atrocities. Or maybe the feeling of impotence is so frightening that leave us incapable of facing, once more, the guilt of doing nothing to prevent the horror? The reasons for such refuse, however, will be as many as every different emotion that those images may awake in every single individual and I don’t presume to know them all any better than the people themselves.

Nevertheless, I think that those people ought to bear in mind the notion of the privilege that their chance of choice represents. The victims who we refuse to face didn’t have a choice. What was before them wasn’t a photograph but life itself. Neither the thousands of refugees have a choice. Populations who live in war scenarios, who endure shootings, explosions, murders, slaughter, bloodbath and the sort, cannot simply refuse themselves to see. It’s all happening before them. Massive destruction and human massacre is a horrendous, barbaric spectacle and represents a constant aggression towards humanity in general – though, inside that humanity there’s a group of people who can turn off the button or simply looking elsewhere, and another group, that of the people involved in the tragedy. Senses cannot be unplugged. Whoever is there is forced to look, liking it or not.

For those like us who can unplug, divert our eyes and not look, it’s simply a matter of choice. A tremendous privilege. We must be aware of that. And maybe we should also be aware of something else: that people who are given the privilege of choice should, perhaps, choose consciously to look, to see, even through swallowing tears, dreadful anguish, uneasiness and shivers. To face the horror demands a devastating effort, for sure, but what if everybody on earth, like the horror’s victims, had no choice? What if those images we refuse to see crossed our threshold everyday and we could do nothing to avoid it? What if each one of us could feel on their own skin every single bit of aggression towards every single human being on earth, given that the wholeness of humanity would allow us to share only one universal body? That might, who knows, trigger the revolution we need to decree zero tolerance to extreme violence.