© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Friday, 14 October 2016

Poetas na Diáspora - Antologia


A I Antologia de Poetas na Diáspora (Oxalá Editora - Autores da Diáspora), contemplando 21 poetas de vários países, chegará em breve a algumas livrarias em Portugal, e já se encontra disponível aqui.

Monday, 10 October 2016

Grandes e pequenos idiotas

Assim como há grandes e pequenos filhos da puta, também há grandes e pequenos idiotas. Os pequenos idiotas não trazem grande mossa ao mundo; já os grandes idiotas não podem passar despercebidos. Não estando nunca contentes com o seu tamanho, esforçam-se constantemente por ser maiores e melhores idiotas. Claro que se acham o máximo, e claro que os outros é que são os idiotas, na sua perspectiva. As suas opiniões deveriam até ser emolduradas a ouro e penduradas nas paredes. Que digo eu? Deviam erguer-se monumentos nacionais às suas ideias brilhantes e visionárias. O grande drama do grande idiota é precisamente este: ninguém parece reparar que só do seu cérebro milagroso é que brotam pérolas dignas desse nome, que só da sua mente genial é que se eleva, qual ave rara e perfeita, a verdade absoluta. Que fazer, então, para que o mundo repare neles? Aqui começa a grande luta do grande idiota. Há que embandeirar a maravilhosa e prodigiosa obra da natureza que transportam nos seus crânios. E, claro, como grandes idiotas que são, só encontram uma maneira de o fazer: derrotando todos os edifícios ideológicos diferentes do seu; as ideias e opiniões que não coincidem com as suas, as teorias que abarcam diferentes pontos de vista, tudo isso é reduzido a pó, espezinhado, enxovalhado, calcado com ambos os pés, e cuspido em cima. Mas aqui os grandes idiotas cometem um erro crasso (como não poderia deixar de ser, dada a sua condição de grandes idiotas): em lugar das ideias alheias, eles atacam as pessoas que têm essas ideias. Em vez de discutir e argumentar, eles apenas sabem ofender e humilhar verbalmente quem manifesta uma opinião contrária. E neste ataque pessoal tudo vale, o objectivo é só um: denegrir e humilhar o outro. Estratégia que revela bem o quão pobres de espírito estes grandes idiotas realmente são.

Outra das características dos grandes idiotas é que nunca dão o braço a torcer. Recuar, pedir desculpa? Que é isso? Que humilhação para suas excelências! Aliás, eles NUNCA se enganam. NUNCA se excedem, NUNCA exageram, NUNCA fazem nada errado. Ou não fossem eles donos e senhores da VERDADE ÚNICA E INQUESTIONÁVEL. Têm uma missão na terra, que é a de combater eficaz e ferozmente a imbecilidade dominante (a dos outros, como é evidente), responsável, segundo eles, pelos grandes males da humanidade. E nesse combate levam tudo à frente.

Desgraçadamente, o seu discurso assemelha-se perigosamente ao de um presidente de um país, que também ele, querendo erradicar o mal e a podridão da face da terra para assim dar lugar ao florescimento da, segundo ele, raça superior, usou um povo inteiro como bode expiatório, com o resultado que todos nós tão bem conhecemos. O perigo para a humanidade que os grandes idiotas representam torna-se claro, precisamente, quando eles chegam (ou ficam prestes a chegar) a altos cargos de poder, onde têm nas mãos as armas para decidir sobre a vida de milhões de pessoas.

Wednesday, 22 June 2016

Apaixonei-me por um livro

23 de Março de 2009
O meu livro muito amado: corpo delicado, mãos pequenas, unhas roídas, olhar doce e cabelos fartos, negros, que lhe caem em cachos até ao pescoço. Eu vivia para aquele livro: esperava pelas idas ao teatro como se apenas ali, naquele espaço mágico, me fosse possível respirar. Naquela altura desconhecia que a rapariga que eu amava era um livro, assim como todas as pessoas que eu conhecia. Só o soube depois de morto. Que fosse preciso morrer para me aperceber de uma coisa tão óbvia é espantoso. Serão os vivos todos cegos como eu era?

As pessoas são livros porque têm muitas páginas. Quando olhamos alguém vemos apenas a página de rosto, tal como quando olhamos um livro. Ao abri-lo, outras páginas se revelam; porém, só uma de cada vez: há sempre aquelas que permanecem ocultas. O mesmo se passa com as pessoas.

Os livros que amamos, aqueles que nos conquistam, são os que lemos até ao fim, vencidos; os mesmos que, chegados à última página, não queremos que terminem e continuamos, em delírio, a folheá-los, numa teimosia que nos transforma, de súbito, em escritores-fantasma.

Os livros, tal como as pessoas, não podem ser abertos de qualquer maneira. Manusear um livro exige delicadeza. As pessoas recuam se as lermos sem o mínimo de cuidado. Antes de abrir um livro, o toque é essencial. A capa, a lombada, a folha e só depois o toque da palavra. 

7 de Agosto de 2001
Antes de eu morrer, morava em Fajã da Ovelha com os meus avós maternos. Isto depois do acidente de viação que vitimou os meus pais, tinha eu apenas cinco anos. O meu avô paterno, que já nessa altura era viúvo, queria que eu fosse viver com ele para o Funchal e tentou convencer o meu avô materno, usando argumentos que visavam a minha educação e as oportunidades que uma vida citadina, segundo ele, ofereciam; este, no entanto, não se deixou levar na conversa, frisando que em Fajã da Ovelha também havia escola; além disso, dizia ele, apoiado pela minha avó, uma criança precisa, acima de tudo, de uma mãe e, na falta desta, uma avó desempenha melhor do que ninguém esse papel.

Assim foi. Eu vivia com os pais da minha mãe numa rua inclinada, onde os carros não chegavam e aos sábados o meu avô, pai do meu pai, estacionava o Ford Mondeo ao pé da Igreja e vinha buscar-me. A Igreja era branca e desaparecia nos dias de nevoeiro. Uma vez no Funchal, almoçávamos sempre no mesmo restaurante, íamos ao teatro e dávamos umas voltas pelo porto e a marina se estava bom tempo. Eu gostava de ouvir o grito dos cruzeiros que abandonavam o porto. As prateleiras da casa do meu avô estavam repletas de livros. Todos os sábados ele me dava um, acrescentando que os livros, tal como os cruzeiros, podiam levar-me a ver o mundo.

20 de Fevereiro de 2010
Naquele sábado a enxurrada apanhou-nos na estrada. Foi tão rápido que não me recordo. Estava sentado no lugar do morto, ao lado do meu avô e olhava a chuva que caía em cascata no vidro enquanto os limpa-pára brisas, no máximo, executavam a sua dança mecânica. No segundo a seguir já não estava ali. Uma árvore caída, arrastada na fúria das águas, embateu no carro. Fomos varridos ribanceira abaixo até ao mar.

O lamaçal invadiu o Teatro Municipal Baltazar Dias, o mesmo onde tantas vezes assistíramos a espectáculos e concertos de música. Era uma imagem desoladora. Eu e o meu avô pairámos por ali dia e noite, completamente desconsolados. Aquela passou a ser a nossa morada. Os mortos vivem nos sítios onde foram felizes.

17 de Junho de 2008
Foi neste teatro que conheci o livro por quem me apaixonei. Ela vinha com a mãe e a irmã e sentavam-se no camarote ao lado da nosso. Durante o espectáculo, eu imaginava os olhos dela pousados nas mesmas coisas que os meus e isso era o mais parecido com uma carícia a que me atrevia. O mesmo acontecia à noite quando, ao mirar a lua, acreditava que ela a olhava também, naquele preciso instante e só isso era suficiente para me sentir imensamente feliz.

8 de Abril de 2009
Às vezes penso que comecei a amá-la quando a vi chorar numa peça de teatro mais dramática. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto e toda ela era um silêncio profundo. Desconfio de que ninguém deu por aquelas lágrimas e eu só fui testemunha porque estava mais interessado em observá-la pelo canto do olho do que na cena que se desenrolava no palco. De outras vezes creio que o meu coração ficou cativo numa noite em que veio uma pianista famosa dar um concerto. Não me lembro do nome da pianista mas sim da música que lhe voava dos dedos e do modo como, arrebatado, levitei pela sala. A sensação era quase a mesma de agora, depois de morto.

As luzes no palco completam a magia: notas de um piano, voz, uma silhueta, cabelos incendiados, rosto oculto e desvendado no jogo de sombras e contraluz; a voz que respira em nós; o som da guitarra, do acordeão; um rio de sons e a beleza de um perfil, de uma boca; a beleza nua do mundo; a beleza de uma tragédia sem o peso da tragédia; o peso da leveza, o peso da ternura. 

13 de Janeiro de 2016
O meu coração, apesar de parado há seis anos, continua a sobressaltar-se de cada vez que ela vem ao teatro. Na minha condição já não preciso de abrir os livros para os ler. Sei que moro nas suas páginas juntamente com a dor da minha ausência. Sofre de saudade crónica. O que lhe custa mais, eu sei, é não me ter visto uma última vez. Como dizer-lhe que não devemos nunca despedir-nos de um grande amor ou de uma paixão do tamanho da própria vida? O que teria sido de mim se soubesse que ia morrer naquele segundo exacto, ainda que um escasso segundo antes?

11 de Abril de 2016
De há uns tempos para cá os escritores vêm ao teatro todos os anos. Vêm também jornalistas entrevistar os escritores. Falam de literatura e de arte. Vão às escolas, levam livros às nossas crianças, lêem-lhes histórias. Ela, o meu livro mais amado, está cá sempre, com a mãe e a irmã, a assistir ao festival literário. No camarote que eu e o meu avô ocupávamos senta-se agora um outro rapaz com o pai.

Vi-lhes nascer o amor em pequenos gestos. Vi-o crescer. Vi-os abandonar os camarotes e sentarem-se lado a lado na plateia. Vi-os conversar, rir, perder o olhar um no outro como só os apaixonados são capazes. Vi-os escutar as conversas dos escritores de mãos dadas, ouvir música de olhos fechados e cantar na escuridão dos concertos como se gritassem o nome um do outro em surdina. Os mortos, felizmente, não sentem ciúmes.


16 de Abril de 2016
Os escritores trazem palavras e vida a este teatro. Saberão o quanto iluminam as ruas? São uma espécie de família empenhada em expandir a sua fé no poder da literatura. Os escritores acreditam que os livros nos salvam. Desconhecem, contudo, que as pessoas são livros; ou melhor, sabem-no melhor do que ninguém mas pensam que tal ideia é uma metáfora. Estão convencidos, aliás, de que a vida é uma alegoria. E que lhes cabe a si descodificar o mundo e como tal fazem um esforço considerável para tornar as suas palavras, a sua linguagem muito própria, inteligível para o comum dos mortais. As pessoas, porém, são livros, todas elas; e não no sentido metafórico. Cada uma com uma linguagem única. A diferença entre elas e os escritores é que os últimos insistem em traduzir a multiplicidade de páginas que trazem dentro, sofrem de uma compulsão comunicativa, as suas palavras precisam de encontrar outras e definham se não vêem a própria luz disseminada pela humanidade inteira, ainda que seja no silêncio que melhor se escutam e ganham sentido. Já as primeiras, guardam para si as suas histórias e contentam-se com a reclusão que o anonimato acarreta: são os diários esquecidos dentro de gavetas ou os livros que nunca se escrevem por receio ou pudor.


Depois de seis dias a ouvir escritores discorrer sobre falsidade e verdade na literatura e no cinema, sobre direitos humanos, alteridade, religião, biografia e muito mais, estou capaz de escrever um livro. Os defuntos perdem as páginas assim como as árvores perdem as folhas. A morte é o inverno da existência. Eu, todavia, revolto-me contra a morte, não me resigno à ideia de nunca mais poder tocar o meu livro amado. Conhecer-lhe as páginas de cor não basta. O amor exige o bater do coração que já não me mora no peito. Por isso reescrevo a minha história: para que venha a primavera e com ela, novas páginas onde possa reinventar-me e, quem sabe, partir finalmente num desses cruzeiros que deixam para trás um ronco surdo pairando nas nuvens.

(texto publicado na rubrica Diário do Jornal de Letras de 8 a 21 de Junho de 2016)

Tuesday, 7 June 2016

Apaixonei-me por um livro, amanhã no Jornal de Letras

Um Festival Literário não se esgota nas conferências, conversas e convívio entre escritores, organizadores e jornalistas. Quando, no dia 16 de Abril, embarquei no Aeroporto do Funchal, de regresso a Londres, trazia na mala um punhado de estórias que as pessoas e os lugares que visitei me foram contando ao longo daqueles cinco dias. Fui até à Fajã da Ovelha com o Duarte, a Manuela e o Francisco, onde nos perdemos no nevoeiro à procura da escola e não conseguíamos ver a Igreja que toda a gente nos indicava como ponto de referência. Chegámos a desconfiar de que, por aquelas bandas, se chamava Igreja a locais mais prosaicos de práticas de rituais de convívio e consumo de bebidas espirituosas. Ouvi relatos sobre as cheias de 2010 e pressenti o horror da tragédia no relevo acidentado da ilha, nas ribanceiras e escarpas que se abatem na ferocidade do mar, na voz de quem me falava de algo que parecia ter sucedido, não há seis anos, mas ontem, porque a dor estanca o correr do tempo e não deixa enterrar os mortos. Caminhei pelo porto e a marina, onde os cruzeiros se erguem como gigantes réplicas, não de arranha-céus, mas de arranha-mares, e pisei os patamares ajardinados que se construíram por cima do morro de destroços que as enxurradas arrastaram até ali. A belíssima pintura do tecto do Teatro Baltazar Dias, assim como as paredes, os camarotes e os estofos de veludo escarlate, também me sussurraram vultos, memórias, pedaços de vidas, que me limitei a guardar no fundo dos bolsos. No concerto do Jorge Palma, aquele espaço ganhou outra dimensão ao som das vozes, da música, do ritmo, das luzes. E a magia aconteceu. O resultado sai amanhã, em texto, na rubrica Diário do Jornal de Letras: Apaixonei-me Por Um Livro. Façam o favor de ler.

Sunday, 29 May 2016

Livros emprestados

Caí no erro de emprestar o Manual de Sobrevivência para Poetas, Sonhadores e Outras Criaturas Aladas e nunca mais voltei a vê-lo. Encontrei-o na biblioteca do meu avô, uma tiragem de 1899 de uma editora a que não se conseguia ler o nome, autor anónimo. Certa vez, antes de o ter emprestado, encontrei um exemplar gémeo num alfarrabista nas Escadinhas do Duque, em que a palavra Aladas do título fora substituída por Aluadas, de forma que desconheço qual o título original. O livro destina-se a ajudar quem sofre de ausências recorrentes (a psiquiatria contemporânea chama-lhe episódios de despersonalização e/ou desrealização) e nesse campo era-me particularmente vantajoso, uma vez que sofro desse mal desde tenra idade. No dia em que o terminei, almocei com a minha amiga Nora e, enquanto subia momentaneamente ao cimo do carvalho que avistava da janela, ela pediu-mo emprestado. Quando voltei a mim já era tarde.

(escrevi este texto a pedido do Nuno Costa Santos, para um artigo no Observador: http://observador.pt/especiais/aquele-livro-emprestado-ainda-vai-outra-vez/)

Sunday, 24 April 2016

Os Comeres dos Ganhões

Da Páscoa da minha infância, o que retenho é o traseiro de um senhor chamado Vadis. O Aníbal gostava da piada: é hora de ver o Quo Vadis! E todos os anos a cena se repetia.
O meu primo Aníbal era ateu e comunista convicto. A livraria que fundou em Estremoz e onde distribuía livros proibidos pela censura retém o seu nome até hoje. Era também um excelente cozinheiro. Arrisco dizer que em sua casa se comia melhor do que nos mais bem cotados restaurantes da região. A Cozinha dos Ganhões, que continua a integrar a FIAPE, em Estremoz, foi ideia sua e de outros seus compadres.
Os Comeres dos Ganhões, editado em 1994 pela Campo das Letras, é uma colectânea de receitas típicas muito original: antes de cada receita são reunidos testemunhos sobre a forma como aquele prato (não) era comido nos tempos em que a fome e a miséria grassavam no Alentejo.
São histórias de pasmar: o trabalho de sol a sol, ou ver a ver, durava enquanto houvesse luz. A açorda pelada, assim designada porque quando caía nas calças não deixava nódoa. As azeitonas sapateiras, mergulhadas numa água escura que cheirava à água onde os sapateiros punham as solas de molho. Uma sardinha repartida por três: o rabo para um, a barriga para outro, e uma briga porque ninguém queria a cabeça.
Batermo-nos pela divulgação e reedição de livros portadores de memórias colectivas, pilares da nossa identidade que é imperativo preservar é mais eficaz, creio, do que clamar a fogueira para aqueles a que não devíamos dar a mínima importância.

(texto publicado na Revista Sábado a 11 de Março de 2016 com o título "A Caminho do Alentejo...")

Monday, 18 April 2016

A minha apresentação no Festival Literário da Madeira, Abril de 2016

«Há livros que se premeditam, há livros que nos acontecem» Eduardo Prado Coelho 

A palavra premeditação tem, para mim, uma conotação quase imediata com frieza e calculismo; mais depressa a associo a crimes inconfessáveis do que a livros. Quem sabe por isso, ao ler esta frase, comecei, involuntariamente, a transformar o seu significado noutra coisa qualquer.

Deste modo, dividi a palavra em duas: pré + meditação
A palavra meditação pode ter dois significados:
 - Acto de reflectir, pensar sobre um assunto de forma profunda;
 - Exercício mental que consiste em bloquear as ondas mentais, esvaziar a mente de todo e qualquer pensamento, normalmente com o auxílio de um mantra.
Estes dois significados parecem, aparentemente, contraditórios. Como é que se reflecte sobre um assunto esvaziando a mente de pensamentos? A não ser que a mente passe a reflectir como reflectem os espelhos, tal parece tarefa impossível.

Por outro lado, existe uma diferença subtil entre dizer, “eu pensei sobre o assunto” e “eu meditei sobre o assunto.” Meditar implica uma profundidade diferente, quem sabe uma natureza de pensamento diferente.

O que nos distingue dos outros primatas, em termos cerebrais, é o desenvolvimento do córtex cerebral, que deu origem ao chamado neocórtex. Nele estão localizadas tanto as competências linguísticas como as competências dos processos de pensamento superior: pensamento abstracto e científico, raciocínio lógico, etc. É devido ao papel do neocórtex que a imaginação e a fantasia se encontram desenvolvidas, na nossa espécie, da forma única que conhecemos.

Ora então, quem sabe, a meditação implique um adormecimento, uma anulação dos processos superiores do pensamento, ou seja, um esvaziamento mental de todo e qualquer pensamento produzido pelo neocórtex, para assim deixar que o nosso cérebro primitivo, aquelas regiões do cérebro que temos em comum com os outros primatas, entrem em acção. Meditar seria, assim, tanto a ausência de qualquer pensamento lógico e abstracto, como acarretaria um pensamento de natureza diferente, porque produzido em regiões do cérebro mais primitivas, sem a interferência das chamadas zonas superiores.

Sob o efeito da meditação, algumas pessoas descrevem um estado de paz interior, de plenitude, de sensação de harmonia com a natureza e com os outros. Alguns descrevem também experiências de expansão mental, como se a mente se libertasse do corpo, transcendesse os seus limites. Há também, dentro deste contexto, relatos de experiências de conexão com outras almas, como se de alguma forma houvesse um espaço de consciência colectiva que pudesse ser partilhado por toda a humanidade. Eu chamaria a isto experiências de comunhão empática.

Voltemos agora à premeditação, ou pré-meditação. Ora a palavra pré refere-se ao preparo de algo ou ao que está antes do início. Pré-meditação será então o estado anterior à meditação, ou seja, o estado que antecede o esvaziar da mente, na linha de raciocínio de há pouco. Desta forma, no estado de pré-meditação, ainda nos encontramos na posse de todos os processos de pensamento lógico e abstracto, onde se incluem a imaginação e a fantasia.

Os livros que se premeditam seriam, assim, os livros que se pré-meditam. Dito de outra forma, os livros que vivem dentro da nossa cabeça. É, aliás, este o local de gestação de todos os livros: antes de os escrevermos, os livros habitam o nosso pensamento. É o momento de imaginar as personagens e o enredo, fantasiar os cenários, a época, o destino das personagens. O livro toma conta de nós e dos nossos pensamentos; apesar de não escrevermos uma frase que seja, somos constantemente habitados por palavras, esboços de personagens e lugares, diálogos, enredos, tramas, paixões, desgostos; outras vidas, em suma. O livro vai-se construindo de forma idealizada, grandiosa; é também o momento da dúvida existencial na nossa capacidade de o escrever. Decerto, o livro que imaginamos nunca é o livro que escrevemos.

Porque quando o livro nos acontece, e ele acontece a partir do momento em que começamos a escrevê-lo, entramos no estado seguinte, o da meditação, que traz o vazio da mente e os tais processos de pensamento primitivos. O livro acontece quando pomos de lado pensamento, fantasia e imaginação e metemos mãos à obra; quando entramos para dentro do enredo, vestimos a pele das personagens e as trazemos à vida. É quase um parto, no verdadeiro sentido da palavra: durante meses imaginámos e fantasiámos o nosso bebé e finalmente temo-lo ali, roxo, coberto de muco, chorando a plenos pulmões. O bebé imaginado morre naquele segundo para dar lugar ao bebé real e ao nascimento de um pai e de uma mãe. O livro imaginado também morre no segundo em que se materializa nas nossas palavras, as palavras que serão as escolhidas de entre as imaginadas. O livro de carne e osso é feito da acção de encontrar essas palavras-tijolo e com elas construir edifícios, catedrais, ruas, cidades, países, continentes, universos. Dar corpo e alma a outras pessoas e entrar-lhes para dentro da pele, da cabeça, calçar os seus sapatos, falar pela sua boca, pensar os seus pensamentos, sofrer os seus desgostos, rir as suas alegrias, em suma, viver os seus dias.

É de salientar que, nesta fase de meditação, em que o livro nos está a acontecer, e em que a nossa mente se esvazia de pensamentos, o fundamental é atingir o tal estado de comunhão empática de que há pouco falava. É através desse estado mental de fusão com o outro, possível devido à empatia, que as personagens ganham vida.

Os livros que se premeditam tornam-se, assim, em todos os livros, os escritos e os não escritos; os livros que nos acontecem naqueles, de entre os premeditados, que escrevemos de facto.

O meu contributo para o Festivalinho Literário Infantil da Madeira, Abril de 2016

«Todas as crianças do Mundo devem ser concebidas como seres nascidos para ler» Lídia Jorge

"Falamos em ler e pensamos apenas nos livros. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoção nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar."
Mia Couto

Eu diria que, nisso, as crianças são exímias. Já dentro da barriga das mães os bebés lêem: lêem o bater do coração, o sopro da respiração, o fluxo sanguíneo, a digestão, o trânsito intestinal e todo o universo de ruídos que acompanha estes mecanismos. Lêem a obscuridade e a luz, vermelha porque atravessa a carne (como a luz que se incendeia quando olhamos para o sol através dos dedos), lêem a obscuridade e a luz, dizia, que com eles mora naquele espaço aquático, morno, aconchegante que é o útero materno. Ler é ver e ouvir o mundo e, acima de tudo, senti-lo.

Uma vez fora do útero, os bebés são submetidos a uma avalanche de novos sinais, novas páginas, novas leituras. Tudo é novo. E eles continuam a ler, amparados na página-mãe a quem recorrem em busca de significados familiares que os ajudem nos códigos acabados de estrear da interpretação do mundo. Os bebés recém nascidos, aliás, são especialistas em identificação, decifração e distinção, três características indispensáveis à leitura: com apenas horas de vida são capazes de identificar tanto o cheiro do leite como a voz da mãe.

À medida que crescem, irão especializar-se na leitura de emoções, principalmente aquelas que lêem na face humana. Desde a nascença, os bebés reagem à face humana com vocalizações e padrões de comportamento que constituem os primórdios da interacção social. A face humana é, assim, uma das páginas principais do livro-mundo.

Os bebés são também exímios a ler as condições climáticas do estado de espírito de quem os rodeia, com muito mais competência do que os adultos. Apesar de ainda não saberem o que significa a tristeza, ou a alegria, ou a raiva, ou a melancolia, ou a irritação – a sua mente ainda não se desenvolveu o suficiente para possuir sequer o significado de conceito – eles sabem intuitivamente identificar todo o especto das emoções humanas e possuem também uma capacidade inata de reagir a cada uma dessas emoções. Os bebés estão, assim, a ler constantemente os nossos rostos, o nosso olhar, os nossos gestos, o som da nossa voz, a nossa vitalidade e energia – em suma, a nossa humanidade.

De notar que todas estas leituras acontecem antes da palavra. A palavra é um símbolo, que descreve um conceito, que por sua vez se associa a algo como uma emoção, uma ideia, um pensamento. Mas a mente do bebé ainda não simboliza e por isso o que ele lê é a matéria orgânica que está na essência do símbolo: a temperatura, a textura, o toque, a sensação e o sentir.

O bebé lê com o olhar, com a ponta dos dedos, com a boca, com o corpo todo. Quando nos toca o rosto, o nariz, a boca, e os aperta na sua mãozinha minúscula – quando nos segura o indicador no punho fechado e parece não querer largar – quando nos puxa os cabelos, quando leva à boca tudo o que toca, quando precisa de sentir nas mãos a textura de todos os objectos – está a ler, a comunicar e a descobrir.

Todas as crianças são, por conseguinte, e desde sempre, leitoras por excelência. E agora não resisto a introduzir aqui uma nuance, uma pausa e uma diversão no significado desta palavra: leitora. E diria assim: as crianças são leitoras, tanto no sentido de ler o mundo, como no sentido de beber o leite que o mundo lhes dá.

Este segundo sentido da palavra parece não fazer sentido nenhum. Deixem-me, então, contar-vos uma história: um dia, teria o meu filho mais novo uns 3 anos, enquanto lhe lia um livro que continha ilustrações de animais da quinta, ele disse, com ar desconsolado: eu nunca vi uma vaca leitora, mamã... eu queria ver uma!

Na altura dei uma gargalhada e tentei perceber que raio queria ele dizer. Não levei muito tempo a entender, quando me lembrei de uma pergunta que ele me fizera há poucos dias: o que é leitura, mamã? Ao que eu respondi e ele reagiu, desconfiado: leitura parece que vem de leite! E desde aí, até hoje, com 13 anos, sempre que ouve a palavra leitura, ou leitor, ele associa a leite. Deste modo, a vaca leitora é a vaca que dá o leite – ou seja, vaca leiteira.

Claro que expliquei isto ao meu filho, mas a mente dele continua a teimar nesta associação. Eu própria fiquei a pensar nela: nas possibilidades de leitura, de desconstrução das palavras; na geração de novos significados através de associações criativas. Fiquei a pensar em como cada leitor lê (ou bebe) o mundo, ou o sumo do mundo (o leite) à sua maneira, e de como isso alimenta, gera em cada um de nós a imaginação e a fantasia, que por sua vez enriquece o mundo (o nosso, interior, individual, e o exterior, o local de encontro com o outro).

Como já devem ter percebido, foi desta história que nasceu a Vaca Leitora, o conto infantil publicado o mês passado pela D. Quixote. A história de uma vaca que está farta do sabor do pasto, sempre igual – está farta de estar sempre a ler a mesma coisa – e um belo dia, já em desespero, começa a comer as folhas do jornal que o senhor Manuel, o dono da quinta, distraído, deixou em cima do muro. A vaca começa, então, a ruminar palavras e isso traz um sabor especial ao seu leite.

Ruminar palavras, brincar com os seus significados, construir novas palavras, novos conceitos, novos mundos: é isto que as crianças fazem ao brincar, primeiro com os objectos, as mãos, o corpo, e depois com as ideias, as palavras, os símbolos, a imaginação. É isto ser leitor: ler, ou beber o mundo para assim criar novos mundos.

Saturday, 9 April 2016

Um vazio do tamanho da nossa ignorância

Hoje em dia está na moda achar que todos os livros são autobiográficos. Deixem que diga: não há livros autobiográficos, a não ser as autobiografias. E, mesmos nestas, não me parece que os autores sejam capazes de pôr a ficção de lado, simplesmente porque ninguém consegue tal proeza. Nós ficcionamos o tempo todo. Como é que alguém se consegue comover com um raio de sol a dissolver as nuvens de um dia cinzento, as ondas do mar, as estrelas no céu ou uma paisagem de sonho? Reparem: as estrelas são apenas explosões a milhares de milhões de anos-luz, a maioria já extintas. A água do mar é composta por um átomo de oxigénio para dois de hidrogénio, em estado líquido, e as respectivas pontes. Isso e mais uma enxurrada de minerais. Não tem mistério nenhum. Os raios de sol são uma ilusão, já que a luz, à prodigiosa velocidade aproximada de 300 mil quilómetros por segundo, é invisível; ou melhor, é ela que nos permite ver, mas não a podemos ver a ela. Ou seja, se nos limitássemos a ver o mundo tal como ele é, não haveria poetas.

Nem poetas, nem alma, nem transcendência, imaginação, fantasia, idealização. Não haveria humanidade. Ponto final.

Hoje em dia, porém, ninguém parece interessado em fantasia, imaginação, transcendência. A obra literária é apenas um pretexto para espreitar para dentro da vida do autor, como as crianças que espreitam pelo buraco da fechadura da casa-de-banho. Se a personagem sofre de depressão e melancolia então o autor deve sofrer de depressão e melancolia, se se suicida é porque conhece de certeza alguém que se suicidou (uma vez que ter-se suicidado o autor para escrever sobre isso seria disparatado), se no livro há uma família disfuncional é porque o autor deve ter crescido numa, se relata violência é porque certamente  experimentou essa violência, se descreve um episódio de violação é porque foi violado, se conta a história de uma criança orfã é porque ou é ele próprio orfão ou conhece alguém, senão como é que conseguiria descrever tão bem todas estas situações? Isto não é ler, senhores, isto é tecer considerações sobre a vida alheia, um dos passatempos mais disseminados nestes estranhos tempos. O analfabetismo de ontem deu lugar a um outro tipo de iliteracia. Ler não é apenas decifrar um código linguístico; é, acima de tudo, deixarmo-nos transportar pelas palavras, abrir a porta para outros mundos, outras realidades.

Aqui há tempos um grupo de estudantes de uma das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos redigiu uma lista de livros que considerava perigosos ao mesmo tempo que solicitava a sua remoção dos programas curriculares, justificando que a leitura de tais livros poderia perturbar emocionalmente os leitores e até levá-los ao suicídio. Da lista constavam obras como a Metamorfose de Kafka e outros grandes nomes da literatura clássica. Isto é preocupante. As universidades deixaram de ser locais onde se exercita o pensamento; a escola deixou de educar para a reflexão e expressão criativa, para o desenvolvimento das capacidades de abstracção das ideias. De que outra maneira se explica que estes estudantes tenham medo de pensar? A capacidade de pensar constitui o único e verdadeiro espaço onde a liberdade não tem limite. Perder esse espaço é perder humanidade, é tornarmo-nos prisioneiros do mundo concreto, aquele onde os raios de sol não passam de uma ilusão e as estrelas já morreram há muito no meio de um vazio imenso e obscuro, do tamanho da nossa ignorância.

Tuesday, 22 March 2016

Já nas livrarias

O livro infantil a Vaca Leitora já se encontra à venda nas Livrarias.
O livro foi escrito por mim e ilustrado pela Rute Reimão.
Esta é a história da Vaca Felisberta, que vivia numa quinta muito bonita, mas andava fartinha do pasto e das ervas que comia todos os dias. Até que descobriu um novo petisco muito especial...


Tuesday, 8 March 2016

Miúda Children's Books in Portuguese

Em Londres, a comunidade portuguesa já soma para cima de 30 000 habitantes. Uma das grandes preocupações de quem emigra, no caso de ter crianças, é a adaptação à nova língua e as possíveis consequências para a aprendizagem e o progresso escolar. Isto numa primeira fase, antes mesmo de apanhar o avião. Porque, uma vez chegados, instalados, e as crianças na escola, rapidamente nos apercebemos de que não é essa a grande preocupação, uma vez que, regra geral, as crianças têm um poder de assimilação de uma nova língua incrível. A dor de cabeça passa, assim, a ser outra: a preservação da língua materna. Os miúdos ficam completamente submergidos num meio onde a língua inglesa é predominante. Rapidamente deixam de falar português fluentemente, apesar de nunca perderem a compreensão do idioma, e isto se nós continuarmos a falar em português com eles, porque caso contrário mesmo essa capacidade enferrujará com os anos. A língua é de facto uma ferramenta como outra qualquer: a falta de uso traz a inevitável oxidação e a consequente inutilidade.

Posto isto, uma vez confrontados com esta realidade, a nossa constante preocupação de pais é que as crianças não percam, ou percam o menos possível, o contacto com a sua própria língua. Neste aspecto, os livros representam, sem dúvida, um meio privilegiado e particularmente rico. Foi a pensar nisto que Carla Cruz, uma portuguesa a viver em Londres, mãe de crianças pequenas, meteu mãos à obra e abriu uma livraria online onde se podem encomendar livros de língua portuguesa para crianças a partir do Reino Unido. A ideia é bestial, já que permite aceder aos livros publicados em Portugal a preços razoáveis. A livraria chama-se Miúda Children's Books in Portuguese e pode ser visitada aqui:

http://www.miudabooks.co.uk/

Sunday, 28 February 2016

Adopção hetero e homoparental: o risco (maior) de que ninguém fala

Em entrevista ao jornal Público, no passado 21 de Fevereiro, António Coimbra de Matos expressou uma opinião assaz revolucionária para um psicanalista de 86 anos sobre a adopção homoparental, ao dizer que "não há perigo nenhum na adopção por casais homossexuais", em termos patogénicos; isto se considerarmos que há vinte anos a posição da maioria dos psicanalistas, quanto a esta matéria, era diametralmente oposta. (Entrevista na íntegra aqui). Desconheço se Coimbra de Matos mudou de opinião; o que me parece, porém, é que ainda se continua a dar demasiada importância ao risco que a adopção homoparental possa representar devido ao facto de a criança ter como modelos parentais pessoas do mesmo sexo.

O que me deixa perplexa na discussão deste tema é o silêncio, por parte dos técnicos, em relação ao risco que qualquer situação de adopção acarreta. Este, parece-me, é o risco que importa salientar, porque é aquele que mais poderá afectar a vida da criança em termos de desenvolvimento. Uma criança adoptada é uma criança que, num momento crítico, foi separada dos pais de forma abrupta. As situações que levam a essa separação são muito variadas; todas elas, contudo, têm algo em comum, que é a impossibilidade de encontrar substitutos parentais na família alargada. São crianças, portanto, que sofreram uma rejeição por parte da família de origem, que incorreram em situações de abandono, por sua vez reflexo de incapacidade parental (emocional, financeira ou outra qualquer) e familiar, uma vez que a família não encontra meios de fazer face ao abandono. São situações que comportam, na sua maioria, abuso físico e emocional, abuso de substâncias, violência doméstica, disfunção familiar.

Adoptar uma criança é, por conseguinte, um risco, tanto para casais homossexuais como para heterossexuais. Uma criança vítima de abandono e, na maior parte das vezes, de outros tipos de abuso (porque o abandono é em si um abuso) é uma criança em risco. E este é o risco a que os técnicos deviam dar prioridade em casos de adopção, por ser o de maior alcance em termos de possíveis dificuldades de adaptação e desenvolvimento futuros.

Não estou a negar a existência de factores de risco, em termos de desenvolvimento, de características dos modelos parentais como o facto de serem os dois do mesmo sexo (há outras, como veremos adiante). Estes factores de risco, no entanto, precisam de ser devidamente relativizados e contextualizados, sob pena de confundirmos variações da normalidade (no sentido de desvios à norma) com constelações potencialmente patogénicas. Uma mãe que tenha manifestas dificuldades em estabelecer uma relação simbiótica com o seu bebé recém-nascido representa um risco, como todos os estudiosos da dinâmica familiar bem sabem; mas, a não ser que estejamos na presença de uma mãe definitivamente mal-tratante, não podemos, nem devemos, decretar o afastamento da criança. Até porque dificuldades simbióticas todas as mães apresentam, em maior ou menor grau.

Trocando em miúdos: o bebé passa nove meses dentro da barriga da mãe e, ao nascer, vão ser precisos alguns anos até que se aperceba do acontecimento. Ou seja, o bebé vive num estado de fusão com a mãe nos primeiros tempos de vida. A essa relação chama-se a relação simbiótica. Uma boa simbiose é essencial ao desenvolvimento, isto é, o bebé precisa de se sentir parte de mãe para, mais tarde, se conseguir separar e autonomizar de forma saudável.

Como todas as mães sabem, esta é uma fase complicada. Não só porque acabámos de ser mães, e como tal estamos a dar os primeiros passos, como também porque as mudanças inerentes nos transportam para uma crise de identidade, que no fundo é parte do nascimento de qualquer mãe: temos medo de não ser boas mães, porque não percebemos nada de bebés; o sentimento de responsabilidade pela vida de outro ser, de um ser tão frágil, pode facilmente tornar-se esmagador e paralisante; e lá vem o medo de não ser capaz, de não estar à altura; por outro lado a nossa vida fica de pernas para o ar, o bebé torna-se o centro do universo, giramos à sua volta e das novas rotinas e onde ficamos nós, aquelas que éramos antes, no meio disso tudo? Se é que ainda existe aquela que éramos? Afinal quem somos? Em que nos estamos a tornar? O chão foge-nos debaixo dos pés e não sabemos para onde vamos, nem se conseguiremos lá chegar. E tudo isto acontece dentro das nossas cabeças sem que tenhamos tempo para pensar, porque a vida não pára para nos dar um minuto de descanso, muito menos de reflexão: o bebé chora, quer mama, tem a fralda suja, quer colo, sabemos lá o que ele quer, há o banho, a comida para fazer, a casa para arrumar, e nós só não enlouquecemos por milagre.

Nem tudo são rosas, como sabemos: muitas de nós entram em depressão. E a depressão materna pós-parto é um dos factores de risco mais significativos em termos de desenvolvimento.

Os recém-nascidos já possuem competências no reconhecimento da mãe logo após o parto: há estudos que mostram que são capazes de identificar não só a voz da mãe como o cheiro do seu leite, quando confrontados com amostras tanto do som de vozes de outras mulheres como de panos embebidos em diferentes leites maternos. Os bebés reagem à separação da figura materna, sendo esta reacção proporcional à qualidade da vinculação estabelecida entre a mãe e o bebé.

Por conseguinte, um bebé que perde a mãe (seja por morte ou abandono - aliás, o bebé não tem capacidade de distinção e como tal, do seu ponto de vista, a morte é sempre vivida como um abandono) reage prontamente a essa perda, primeiro com manifestações de protesto - choro, agitação, recusa em alimentar-se, etc - e em seguida, deprimindo-se. O que necessita um bebé nestas circunstâncias? Um substituto adequado. Ou seja, de uma figura materna que substitua a mãe.

Obviamente, o ideal seria uma mulher que pudesse substituir a mãe: uma avó, uma tia, uma mãe adoptiva. E o pai? Não poderia um pai viúvo, por exemplo, substituir a mãe? Afinal o pai é a figura de vinculação mais importante a seguir à mãe. Idealmente, nestas circunstâncias, o pai arranjaria nova companheira, uma mulher que substituísse a mãe. Esta circunstância, no entanto, é bizarra: nenhum homem que acabe de perder a esposa vai pensar em substituí-la imediatamente apenas para a criança não ficar traumatizada. Além de que a situação, a acontecer, seria artificial: os laços afectivos não estariam lá. Nestas circunstâncias, o que temos é um pai e um bebé deprimidos. Situação de risco maior ao quadrado. A forma como se ultrapassam as situações de risco é reagindo. O pai com certeza precisará da ajuda de alguém (uma mãe, uma irmã) mas também pode ele assumir uma relação mais maternal, mais feminina. Eu acho que pode. E creio que estas ideias feitas sobre os papéis masculino e feminino, sobre os comportamentos de um e de outro sexo ainda assentam muito em conceitos demasiado rígidos. Não nego que esses conceitos se tenham formado através da observação transversal em diferentes contextos culturais; falta é, quanto a mim, atentar nas diferenças subtis dentro da mesma cultura e na evolução dos comportamentos. Hoje em dia encontramos homens a assumir papéis e comportamentos que eram considerados exclusivamente femininos há um século. A ideia de que os homens, por natureza, não são capazes de movimentos redondos, concêntricos, inerentes aos comportamentos de cuidado materno, está, creio, impregnada da nossa própria aculturação. O termo natureza é, por conseguinte, dúbio: estamos a falar da natureza animal ou cultural? E como é que se distinguem, se o Homem é um animal social e cultural por natureza?

Voltemos ao bebé que perde a mãe e o pai, e que é entregue para adopção. Situação de risco acrescida, porque não encontra substitutos adequados. Neste caso, a ida para uma instituição, onde não vai encontrar uma figura privilegiada de vinculação, aumenta esse risco, já enorme, exponencialmente. Isto sem falar no facto de, numa instituição, haver o risco acrescido de abuso e negligência por parte do pessoal institucional; realidade que, infelizmente, é verificada pela experiência.

Temos, assim, não uma, mas n situações de risco, potenciando-se umas às outras: é este o bolo oferecido aos casais que optam pela adopção. Faz diferença que esses casais sejam constituídos por um homem e uma mulher, dois homens, duas mulheres? Há, com certeza, diferenças. E essas diferenças, porventura, poderão representar situações de risco adaptativo em termos de desenvolvimento. Assim como uma mãe biológica autoritária e com características mais masculinas, num ponto de vista tradicional, ou um pai com características mais femininas. Ou uma mãe ou pai com uma doença crónica que os impeçam de fazerem uma vida de mobilidade normal, ou pais que se divorciam. Tudo isto são situações que, teoricamente, podem representar algum risco do ponto de vista do desenvolvimento, e podemos pensar em milhares de outros exemplos. São, todavia, muito pouco significativas, comparadas com a situação de risco que o abandono e a perda acarretam. Além disso, representam eventualidades que fazem parte da vida de todos nós. A verdade é que não há nada, nesta vida, que não veicule algum grau de risco. A situação ideal não existe, é uma projecção, uma idealização. Todos nós somos portadores de factores de risco para o desenvolvimento dos nossos filhos - e, obviamente, do seu contrário: facilitadores e portenciadores do desenvolvimento. Mal ou bem, todos vivemos com isso.

Os pais adoptivos vão ver-se a braços com uma vida que foi devastada; necessitam, pois, de bastante ajuda, apoio e orientação para que possam encontrar a melhor forma de compensar afectivamente uma criança que acabou de sofrer uma derrocada emocional. O remédio não tem contra-indicações: amor, carinho, cuidado, consolo, compaixão. Capacidade de amar, respeito pela criança (pela sua diferença), respeito pela situação de luto que ela está a viver e capacidade reparadora para com essa dor.

Dispensam, no entanto, que lhes digam que podem representar um risco, porque, no fim de contas, todos nós temos características que podem ser um risco (as nossas neuroses, depressões, limitações, doenças - e devíamos, todos, ter consciência disso, e nesse caso a ressalva devia ser para todos); do que carecem, com alguma urgência, é de ferramentas para reagir e lidar com a situação, dando àquela criança o amor, o afecto e o reconhecimento de que ela necessita.

Desta questão, que devia ser central na adopção, todavia, ninguém fala.

Monday, 22 February 2016

O absurdo do absurdo

Quem, como eu, assistiu ao vídeo do debate sobre "Transparência, Direitos Humanos e Sociedade Civil em Angola", que aconteceu a 18 de Fevereiro de 2016, e onde participaram o subsecretário de Estado adjunto para os Assuntos Africanos dos EUA, Todd Haskell, o embaixador itinerante António Luvualu de Carvalho e Rafael Marques de Morais (organizado pelo National Endowment for Democracy, em Washington, DC), assistiu ao absurdo dos absurdos, na forma como o embaixador António Luvualu de Carvalho, por várias vezes, acusou Rafael Marques de Morais de dizer mentiras, ao mesmo tempo que ele próprio, António Luvualu de Carvalho, debitava afirmações completamente falsas, mentiras portanto, sobre a situação em Angola: negando que Angola esteja a ser assolada por uma escassez severa de alimentos, fruto da crise que se abateu devido à queda do preço do petróleo; que o nível de pobreza tenha vindo a aumentar; insistindo uma e outra vez que Angola é um estado democrático; que não existem presos políticos; que os jovens detidos desde Junho do ano passado estão-no com base em evidências concretas da prática de crime de conspiração para derrubar o governo; que todo o processo relacionado com estas detenções e o posterior julgamento, ainda a decorrer, está dentro da normalidade do funcionamento da justiça; que existe liberdade de expressão e de imprensa no país; que as muitas denúncias de atentados aos direitos humanos que têm sido feitas quer pelo próprio Rafael Marques de Morais, quer por outros como ele ou por instâncias internacionais e organizações de defesa dos direitos humanos como a Amnistia Internacional não passam de mentiras e calúnias. Chegou ao cúmulo de dizer que o governo angolano não tem nada contra Rafael Marques de Morais, que com ele mantém boas relações: o mesmo homem que já foi mais do que uma vez perseguido, julgado e condenado por difamação ao regime, unicamente por ter a coragem de denunciar publicamente os crimes de corrupção e atentado aos direitos humanos, perpetuados quer por instâncias governamentais, quer pela indústria de exploração de diamantes.

Ouvir alguém que nega a realidade de forma tão contundente chamar de mentiroso a quem tem a coragem de denunciar essa mesma realidade é grotesco, chocante, confrangedor, ridículo e, acima de tudo, vergonhoso. De notar que Rafael Marques de Morais nem por um momento desce ao nível do seu interlocutor: o que ouvimos da sua boca é, tão-só, algo como "that's not true". A diferença entre esta afirmação e disparar, sem rodeios, "you're lying", dignifica a atitude de Rafael Marques. Os cínicos poderão achar que é a mesma coisa apelidar uma pessoa de mentirosa ou apontar-lhe o facto de estar a faltar à verdade. A distinção está, quanto a mim, na educação, no trato, nos princípios; que alguém acusado de mentir por quem o faz descaradamente, tenha a hombridade de resistir a devolver o insulto, que vindo da sua parte teria toda a razão de ser, não é para todos, não senhor.

O que os representantes do governo angolano, o próprio presidente, e todas as pessoas que insistem em negar o inegável não percebem é que a realidade está aí para quem a quiser ver. Hoje em dia a informação chega muito mais longe do que há vinte anos, há uma sociedade civil cada vez mais consciente dos abusos de poder, da corrupção, das condições miseráveis a que está sujeita. Estes processos de consciencialização social não podem ser parados no tempo; não há opressão, repressão, nada, que os possa travar. Os olhos do mundo estão voltados para Angola. A farsa do julgamento aos jovens detidos desde Junho, acusados de tentativa de golpe de estado, que se arrasta por falta de provas e se desdobra em decisões e tomadas de posição completamente arbitrárias, como a própria detenção disso é exemplo, uma vez que não existe uma única prova com valor judicial da prática concreta do crime de que são acusados, não engana a ninguém, somente aos palhaços que insistem em levar o espectáculo de circo até ao fim. Será possível que não vejam o absurdo de tudo isto? 

Leia aqui a intervenção de Rafael Marques de Morais