© Gabriela Ruivo Trindade

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Sunday, 28 February 2016

Adopção hetero e homoparental: o risco (maior) de que ninguém fala

Em entrevista ao jornal Público, no passado 21 de Fevereiro, António Coimbra de Matos expressou uma opinião assaz revolucionária para um psicanalista de 86 anos sobre a adopção homoparental, ao dizer que "não há perigo nenhum na adopção por casais homossexuais", em termos patogénicos; isto se considerarmos que há vinte anos a posição da maioria dos psicanalistas, quanto a esta matéria, era diametralmente oposta. (Entrevista na íntegra aqui). Desconheço se Coimbra de Matos mudou de opinião; o que me parece, porém, é que ainda se continua a dar demasiada importância ao risco que a adopção homoparental possa representar devido ao facto de a criança ter como modelos parentais pessoas do mesmo sexo.

O que me deixa perplexa na discussão deste tema é o silêncio, por parte dos técnicos, em relação ao risco que qualquer situação de adopção acarreta. Este, parece-me, é o risco que importa salientar, porque é aquele que mais poderá afectar a vida da criança em termos de desenvolvimento. Uma criança adoptada é uma criança que, num momento crítico, foi separada dos pais de forma abrupta. As situações que levam a essa separação são muito variadas; todas elas, contudo, têm algo em comum, que é a impossibilidade de encontrar substitutos parentais na família alargada. São crianças, portanto, que sofreram uma rejeição por parte da família de origem, que incorreram em situações de abandono, por sua vez reflexo de incapacidade parental (emocional, financeira ou outra qualquer) e familiar, uma vez que a família não encontra meios de fazer face ao abandono. São situações que comportam, na sua maioria, abuso físico e emocional, abuso de substâncias, violência doméstica, disfunção familiar.

Adoptar uma criança é, por conseguinte, um risco, tanto para casais homossexuais como para heterossexuais. Uma criança vítima de abandono e, na maior parte das vezes, de outros tipos de abuso (porque o abandono é em si um abuso) é uma criança em risco. E este é o risco a que os técnicos deviam dar prioridade em casos de adopção, por ser o de maior alcance em termos de possíveis dificuldades de adaptação e desenvolvimento futuros.

Não estou a negar a existência de factores de risco, em termos de desenvolvimento, de características dos modelos parentais como o facto de serem os dois do mesmo sexo (há outras, como veremos adiante). Estes factores de risco, no entanto, precisam de ser devidamente relativizados e contextualizados, sob pena de confundirmos variações da normalidade (no sentido de desvios à norma) com constelações potencialmente patogénicas. Uma mãe que tenha manifestas dificuldades em estabelecer uma relação simbiótica com o seu bebé recém-nascido representa um risco, como todos os estudiosos da dinâmica familiar bem sabem; mas, a não ser que estejamos na presença de uma mãe definitivamente mal-tratante, não podemos, nem devemos, decretar o afastamento da criança. Até porque dificuldades simbióticas todas as mães apresentam, em maior ou menor grau.

Trocando em miúdos: o bebé passa nove meses dentro da barriga da mãe e, ao nascer, vão ser precisos alguns anos até que se aperceba do acontecimento. Ou seja, o bebé vive num estado de fusão com a mãe nos primeiros tempos de vida. A essa relação chama-se a relação simbiótica. Uma boa simbiose é essencial ao desenvolvimento, isto é, o bebé precisa de se sentir parte de mãe para, mais tarde, se conseguir separar e autonomizar de forma saudável.

Como todas as mães sabem, esta é uma fase complicada. Não só porque acabámos de ser mães, e como tal estamos a dar os primeiros passos, como também porque as mudanças inerentes nos transportam para uma crise de identidade, que no fundo é parte do nascimento de qualquer mãe: temos medo de não ser boas mães, porque não percebemos nada de bebés; o sentimento de responsabilidade pela vida de outro ser, de um ser tão frágil, pode facilmente tornar-se esmagador e paralisante; e lá vem o medo de não ser capaz, de não estar à altura; por outro lado a nossa vida fica de pernas para o ar, o bebé torna-se o centro do universo, giramos à sua volta e das novas rotinas e onde ficamos nós, aquelas que éramos antes, no meio disso tudo? Se é que ainda existe aquela que éramos? Afinal quem somos? Em que nos estamos a tornar? O chão foge-nos debaixo dos pés e não sabemos para onde vamos, nem se conseguiremos lá chegar. E tudo isto acontece dentro das nossas cabeças sem que tenhamos tempo para pensar, porque a vida não pára para nos dar um minuto de descanso, muito menos de reflexão: o bebé chora, quer mama, tem a fralda suja, quer colo, sabemos lá o que ele quer, há o banho, a comida para fazer, a casa para arrumar, e nós só não enlouquecemos por milagre.

Nem tudo são rosas, como sabemos: muitas de nós entram em depressão. E a depressão materna pós-parto é um dos factores de risco mais significativos em termos de desenvolvimento.

Os recém-nascidos já possuem competências no reconhecimento da mãe logo após o parto: há estudos que mostram que são capazes de identificar não só a voz da mãe como o cheiro do seu leite, quando confrontados com amostras tanto do som de vozes de outras mulheres como de panos embebidos em diferentes leites maternos. Os bebés reagem à separação da figura materna, sendo esta reacção proporcional à qualidade da vinculação estabelecida entre a mãe e o bebé.

Por conseguinte, um bebé que perde a mãe (seja por morte ou abandono - aliás, o bebé não tem capacidade de distinção e como tal, do seu ponto de vista, a morte é sempre vivida como um abandono) reage prontamente a essa perda, primeiro com manifestações de protesto - choro, agitação, recusa em alimentar-se, etc - e em seguida, deprimindo-se. O que necessita um bebé nestas circunstâncias? Um substituto adequado. Ou seja, de uma figura materna que substitua a mãe.

Obviamente, o ideal seria uma mulher que pudesse substituir a mãe: uma avó, uma tia, uma mãe adoptiva. E o pai? Não poderia um pai viúvo, por exemplo, substituir a mãe? Afinal o pai é a figura de vinculação mais importante a seguir à mãe. Idealmente, nestas circunstâncias, o pai arranjaria nova companheira, uma mulher que substituísse a mãe. Esta circunstância, no entanto, é bizarra: nenhum homem que acabe de perder a esposa vai pensar em substituí-la imediatamente apenas para a criança não ficar traumatizada. Além de que a situação, a acontecer, seria artificial: os laços afectivos não estariam lá. Nestas circunstâncias, o que temos é um pai e um bebé deprimidos. Situação de risco maior ao quadrado. A forma como se ultrapassam as situações de risco é reagindo. O pai com certeza precisará da ajuda de alguém (uma mãe, uma irmã) mas também pode ele assumir uma relação mais maternal, mais feminina. Eu acho que pode. E creio que estas ideias feitas sobre os papéis masculino e feminino, sobre os comportamentos de um e de outro sexo ainda assentam muito em conceitos demasiado rígidos. Não nego que esses conceitos se tenham formado através da observação transversal em diferentes contextos culturais; falta é, quanto a mim, atentar nas diferenças subtis dentro da mesma cultura e na evolução dos comportamentos. Hoje em dia encontramos homens a assumir papéis e comportamentos que eram considerados exclusivamente femininos há um século. A ideia de que os homens, por natureza, não são capazes de movimentos redondos, concêntricos, inerentes aos comportamentos de cuidado materno, está, creio, impregnada da nossa própria aculturação. O termo natureza é, por conseguinte, dúbio: estamos a falar da natureza animal ou cultural? E como é que se distinguem, se o Homem é um animal social e cultural por natureza?

Voltemos ao bebé que perde a mãe e o pai, e que é entregue para adopção. Situação de risco acrescida, porque não encontra substitutos adequados. Neste caso, a ida para uma instituição, onde não vai encontrar uma figura privilegiada de vinculação, aumenta esse risco, já enorme, exponencialmente. Isto sem falar no facto de, numa instituição, haver o risco acrescido de abuso e negligência por parte do pessoal institucional; realidade que, infelizmente, é verificada pela experiência.

Temos, assim, não uma, mas n situações de risco, potenciando-se umas às outras: é este o bolo oferecido aos casais que optam pela adopção. Faz diferença que esses casais sejam constituídos por um homem e uma mulher, dois homens, duas mulheres? Há, com certeza, diferenças. E essas diferenças, porventura, poderão representar situações de risco adaptativo em termos de desenvolvimento. Assim como uma mãe biológica autoritária e com características mais masculinas, num ponto de vista tradicional, ou um pai com características mais femininas. Ou uma mãe ou pai com uma doença crónica que os impeçam de fazerem uma vida de mobilidade normal, ou pais que se divorciam. Tudo isto são situações que, teoricamente, podem representar algum risco do ponto de vista do desenvolvimento, e podemos pensar em milhares de outros exemplos. São, todavia, muito pouco significativas, comparadas com a situação de risco que o abandono e a perda acarretam. Além disso, representam eventualidades que fazem parte da vida de todos nós. A verdade é que não há nada, nesta vida, que não veicule algum grau de risco. A situação ideal não existe, é uma projecção, uma idealização. Todos nós somos portadores de factores de risco para o desenvolvimento dos nossos filhos - e, obviamente, do seu contrário: facilitadores e portenciadores do desenvolvimento. Mal ou bem, todos vivemos com isso.

Os pais adoptivos vão ver-se a braços com uma vida que foi devastada; necessitam, pois, de bastante ajuda, apoio e orientação para que possam encontrar a melhor forma de compensar afectivamente uma criança que acabou de sofrer uma derrocada emocional. O remédio não tem contra-indicações: amor, carinho, cuidado, consolo, compaixão. Capacidade de amar, respeito pela criança (pela sua diferença), respeito pela situação de luto que ela está a viver e capacidade reparadora para com essa dor.

Dispensam, no entanto, que lhes digam que podem representar um risco, porque, no fim de contas, todos nós temos características que podem ser um risco (as nossas neuroses, depressões, limitações, doenças - e devíamos, todos, ter consciência disso, e nesse caso a ressalva devia ser para todos); do que carecem, com alguma urgência, é de ferramentas para reagir e lidar com a situação, dando àquela criança o amor, o afecto e o reconhecimento de que ela necessita.

Desta questão, que devia ser central na adopção, todavia, ninguém fala.