© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Monday, 22 February 2016

O absurdo do absurdo

Quem, como eu, assistiu ao vídeo do debate sobre "Transparência, Direitos Humanos e Sociedade Civil em Angola", que aconteceu a 18 de Fevereiro de 2016, e onde participaram o subsecretário de Estado adjunto para os Assuntos Africanos dos EUA, Todd Haskell, o embaixador itinerante António Luvualu de Carvalho e Rafael Marques de Morais (organizado pelo National Endowment for Democracy, em Washington, DC), assistiu ao absurdo dos absurdos, na forma como o embaixador António Luvualu de Carvalho, por várias vezes, acusou Rafael Marques de Morais de dizer mentiras, ao mesmo tempo que ele próprio, António Luvualu de Carvalho, debitava afirmações completamente falsas, mentiras portanto, sobre a situação em Angola: negando que Angola esteja a ser assolada por uma escassez severa de alimentos, fruto da crise que se abateu devido à queda do preço do petróleo; que o nível de pobreza tenha vindo a aumentar; insistindo uma e outra vez que Angola é um estado democrático; que não existem presos políticos; que os jovens detidos desde Junho do ano passado estão-no com base em evidências concretas da prática de crime de conspiração para derrubar o governo; que todo o processo relacionado com estas detenções e o posterior julgamento, ainda a decorrer, está dentro da normalidade do funcionamento da justiça; que existe liberdade de expressão e de imprensa no país; que as muitas denúncias de atentados aos direitos humanos que têm sido feitas quer pelo próprio Rafael Marques de Morais, quer por outros como ele ou por instâncias internacionais e organizações de defesa dos direitos humanos como a Amnistia Internacional não passam de mentiras e calúnias. Chegou ao cúmulo de dizer que o governo angolano não tem nada contra Rafael Marques de Morais, que com ele mantém boas relações: o mesmo homem que já foi mais do que uma vez perseguido, julgado e condenado por difamação ao regime, unicamente por ter a coragem de denunciar publicamente os crimes de corrupção e atentado aos direitos humanos, perpetuados quer por instâncias governamentais, quer pela indústria de exploração de diamantes.

Ouvir alguém que nega a realidade de forma tão contundente chamar de mentiroso a quem tem a coragem de denunciar essa mesma realidade é grotesco, chocante, confrangedor, ridículo e, acima de tudo, vergonhoso. De notar que Rafael Marques de Morais nem por um momento desce ao nível do seu interlocutor: o que ouvimos da sua boca é, tão-só, algo como "that's not true". A diferença entre esta afirmação e disparar, sem rodeios, "you're lying", dignifica a atitude de Rafael Marques. Os cínicos poderão achar que é a mesma coisa apelidar uma pessoa de mentirosa ou apontar-lhe o facto de estar a faltar à verdade. A distinção está, quanto a mim, na educação, no trato, nos princípios; que alguém acusado de mentir por quem o faz descaradamente, tenha a hombridade de resistir a devolver o insulto, que vindo da sua parte teria toda a razão de ser, não é para todos, não senhor.

O que os representantes do governo angolano, o próprio presidente, e todas as pessoas que insistem em negar o inegável não percebem é que a realidade está aí para quem a quiser ver. Hoje em dia a informação chega muito mais longe do que há vinte anos, há uma sociedade civil cada vez mais consciente dos abusos de poder, da corrupção, das condições miseráveis a que está sujeita. Estes processos de consciencialização social não podem ser parados no tempo; não há opressão, repressão, nada, que os possa travar. Os olhos do mundo estão voltados para Angola. A farsa do julgamento aos jovens detidos desde Junho, acusados de tentativa de golpe de estado, que se arrasta por falta de provas e se desdobra em decisões e tomadas de posição completamente arbitrárias, como a própria detenção disso é exemplo, uma vez que não existe uma única prova com valor judicial da prática concreta do crime de que são acusados, não engana a ninguém, somente aos palhaços que insistem em levar o espectáculo de circo até ao fim. Será possível que não vejam o absurdo de tudo isto? 

Leia aqui a intervenção de Rafael Marques de Morais