© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Sunday, 24 April 2016

Os Comeres dos Ganhões

Da Páscoa da minha infância, o que retenho é o traseiro de um senhor chamado Vadis. O Aníbal gostava da piada: é hora de ver o Quo Vadis! E todos os anos a cena se repetia.
O meu primo Aníbal era ateu e comunista convicto. A livraria que fundou em Estremoz e onde distribuía livros proibidos pela censura retém o seu nome até hoje. Era também um excelente cozinheiro. Arrisco dizer que em sua casa se comia melhor do que nos mais bem cotados restaurantes da região. A Cozinha dos Ganhões, que continua a integrar a FIAPE, em Estremoz, foi ideia sua e de outros seus compadres.
Os Comeres dos Ganhões, editado em 1994 pela Campo das Letras, é uma colectânea de receitas típicas muito original: antes de cada receita são reunidos testemunhos sobre a forma como aquele prato (não) era comido nos tempos em que a fome e a miséria grassavam no Alentejo.
São histórias de pasmar: o trabalho de sol a sol, ou ver a ver, durava enquanto houvesse luz. A açorda pelada, assim designada porque quando caía nas calças não deixava nódoa. As azeitonas sapateiras, mergulhadas numa água escura que cheirava à água onde os sapateiros punham as solas de molho. Uma sardinha repartida por três: o rabo para um, a barriga para outro, e uma briga porque ninguém queria a cabeça.
Batermo-nos pela divulgação e reedição de livros portadores de memórias colectivas, pilares da nossa identidade que é imperativo preservar é mais eficaz, creio, do que clamar a fogueira para aqueles a que não devíamos dar a mínima importância.

(texto publicado na Revista Sábado a 11 de Março de 2016 com o título "A Caminho do Alentejo...")

Monday, 18 April 2016

A minha apresentação no Festival Literário da Madeira, Abril de 2016

«Há livros que se premeditam, há livros que nos acontecem» Eduardo Prado Coelho 

A palavra premeditação tem, para mim, uma conotação quase imediata com frieza e calculismo; mais depressa a associo a crimes inconfessáveis do que a livros. Quem sabe por isso, ao ler esta frase, comecei, involuntariamente, a transformar o seu significado noutra coisa qualquer.

Deste modo, dividi a palavra em duas: pré + meditação
A palavra meditação pode ter dois significados:
 - Acto de reflectir, pensar sobre um assunto de forma profunda;
 - Exercício mental que consiste em bloquear as ondas mentais, esvaziar a mente de todo e qualquer pensamento, normalmente com o auxílio de um mantra.
Estes dois significados parecem, aparentemente, contraditórios. Como é que se reflecte sobre um assunto esvaziando a mente de pensamentos? A não ser que a mente passe a reflectir como reflectem os espelhos, tal parece tarefa impossível.

Por outro lado, existe uma diferença subtil entre dizer, “eu pensei sobre o assunto” e “eu meditei sobre o assunto.” Meditar implica uma profundidade diferente, quem sabe uma natureza de pensamento diferente.

O que nos distingue dos outros primatas, em termos cerebrais, é o desenvolvimento do córtex cerebral, que deu origem ao chamado neocórtex. Nele estão localizadas tanto as competências linguísticas como as competências dos processos de pensamento superior: pensamento abstracto e científico, raciocínio lógico, etc. É devido ao papel do neocórtex que a imaginação e a fantasia se encontram desenvolvidas, na nossa espécie, da forma única que conhecemos.

Ora então, quem sabe, a meditação implique um adormecimento, uma anulação dos processos superiores do pensamento, ou seja, um esvaziamento mental de todo e qualquer pensamento produzido pelo neocórtex, para assim deixar que o nosso cérebro primitivo, aquelas regiões do cérebro que temos em comum com os outros primatas, entrem em acção. Meditar seria, assim, tanto a ausência de qualquer pensamento lógico e abstracto, como acarretaria um pensamento de natureza diferente, porque produzido em regiões do cérebro mais primitivas, sem a interferência das chamadas zonas superiores.

Sob o efeito da meditação, algumas pessoas descrevem um estado de paz interior, de plenitude, de sensação de harmonia com a natureza e com os outros. Alguns descrevem também experiências de expansão mental, como se a mente se libertasse do corpo, transcendesse os seus limites. Há também, dentro deste contexto, relatos de experiências de conexão com outras almas, como se de alguma forma houvesse um espaço de consciência colectiva que pudesse ser partilhado por toda a humanidade. Eu chamaria a isto experiências de comunhão empática.

Voltemos agora à premeditação, ou pré-meditação. Ora a palavra pré refere-se ao preparo de algo ou ao que está antes do início. Pré-meditação será então o estado anterior à meditação, ou seja, o estado que antecede o esvaziar da mente, na linha de raciocínio de há pouco. Desta forma, no estado de pré-meditação, ainda nos encontramos na posse de todos os processos de pensamento lógico e abstracto, onde se incluem a imaginação e a fantasia.

Os livros que se premeditam seriam, assim, os livros que se pré-meditam. Dito de outra forma, os livros que vivem dentro da nossa cabeça. É, aliás, este o local de gestação de todos os livros: antes de os escrevermos, os livros habitam o nosso pensamento. É o momento de imaginar as personagens e o enredo, fantasiar os cenários, a época, o destino das personagens. O livro toma conta de nós e dos nossos pensamentos; apesar de não escrevermos uma frase que seja, somos constantemente habitados por palavras, esboços de personagens e lugares, diálogos, enredos, tramas, paixões, desgostos; outras vidas, em suma. O livro vai-se construindo de forma idealizada, grandiosa; é também o momento da dúvida existencial na nossa capacidade de o escrever. Decerto, o livro que imaginamos nunca é o livro que escrevemos.

Porque quando o livro nos acontece, e ele acontece a partir do momento em que começamos a escrevê-lo, entramos no estado seguinte, o da meditação, que traz o vazio da mente e os tais processos de pensamento primitivos. O livro acontece quando pomos de lado pensamento, fantasia e imaginação e metemos mãos à obra; quando entramos para dentro do enredo, vestimos a pele das personagens e as trazemos à vida. É quase um parto, no verdadeiro sentido da palavra: durante meses imaginámos e fantasiámos o nosso bebé e finalmente temo-lo ali, roxo, coberto de muco, chorando a plenos pulmões. O bebé imaginado morre naquele segundo para dar lugar ao bebé real e ao nascimento de um pai e de uma mãe. O livro imaginado também morre no segundo em que se materializa nas nossas palavras, as palavras que serão as escolhidas de entre as imaginadas. O livro de carne e osso é feito da acção de encontrar essas palavras-tijolo e com elas construir edifícios, catedrais, ruas, cidades, países, continentes, universos. Dar corpo e alma a outras pessoas e entrar-lhes para dentro da pele, da cabeça, calçar os seus sapatos, falar pela sua boca, pensar os seus pensamentos, sofrer os seus desgostos, rir as suas alegrias, em suma, viver os seus dias.

É de salientar que, nesta fase de meditação, em que o livro nos está a acontecer, e em que a nossa mente se esvazia de pensamentos, o fundamental é atingir o tal estado de comunhão empática de que há pouco falava. É através desse estado mental de fusão com o outro, possível devido à empatia, que as personagens ganham vida.

Os livros que se premeditam tornam-se, assim, em todos os livros, os escritos e os não escritos; os livros que nos acontecem naqueles, de entre os premeditados, que escrevemos de facto.

O meu contributo para o Festivalinho Literário Infantil da Madeira, Abril de 2016

«Todas as crianças do Mundo devem ser concebidas como seres nascidos para ler» Lídia Jorge

"Falamos em ler e pensamos apenas nos livros. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoção nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar."
Mia Couto

Eu diria que, nisso, as crianças são exímias. Já dentro da barriga das mães os bebés lêem: lêem o bater do coração, o sopro da respiração, o fluxo sanguíneo, a digestão, o trânsito intestinal e todo o universo de ruídos que acompanha estes mecanismos. Lêem a obscuridade e a luz, vermelha porque atravessa a carne (como a luz que se incendeia quando olhamos para o sol através dos dedos), lêem a obscuridade e a luz, dizia, que com eles mora naquele espaço aquático, morno, aconchegante que é o útero materno. Ler é ver e ouvir o mundo e, acima de tudo, senti-lo.

Uma vez fora do útero, os bebés são submetidos a uma avalanche de novos sinais, novas páginas, novas leituras. Tudo é novo. E eles continuam a ler, amparados na página-mãe a quem recorrem em busca de significados familiares que os ajudem nos códigos acabados de estrear da interpretação do mundo. Os bebés recém nascidos, aliás, são especialistas em identificação, decifração e distinção, três características indispensáveis à leitura: com apenas horas de vida são capazes de identificar tanto o cheiro do leite como a voz da mãe.

À medida que crescem, irão especializar-se na leitura de emoções, principalmente aquelas que lêem na face humana. Desde a nascença, os bebés reagem à face humana com vocalizações e padrões de comportamento que constituem os primórdios da interacção social. A face humana é, assim, uma das páginas principais do livro-mundo.

Os bebés são também exímios a ler as condições climáticas do estado de espírito de quem os rodeia, com muito mais competência do que os adultos. Apesar de ainda não saberem o que significa a tristeza, ou a alegria, ou a raiva, ou a melancolia, ou a irritação – a sua mente ainda não se desenvolveu o suficiente para possuir sequer o significado de conceito – eles sabem intuitivamente identificar todo o especto das emoções humanas e possuem também uma capacidade inata de reagir a cada uma dessas emoções. Os bebés estão, assim, a ler constantemente os nossos rostos, o nosso olhar, os nossos gestos, o som da nossa voz, a nossa vitalidade e energia – em suma, a nossa humanidade.

De notar que todas estas leituras acontecem antes da palavra. A palavra é um símbolo, que descreve um conceito, que por sua vez se associa a algo como uma emoção, uma ideia, um pensamento. Mas a mente do bebé ainda não simboliza e por isso o que ele lê é a matéria orgânica que está na essência do símbolo: a temperatura, a textura, o toque, a sensação e o sentir.

O bebé lê com o olhar, com a ponta dos dedos, com a boca, com o corpo todo. Quando nos toca o rosto, o nariz, a boca, e os aperta na sua mãozinha minúscula – quando nos segura o indicador no punho fechado e parece não querer largar – quando nos puxa os cabelos, quando leva à boca tudo o que toca, quando precisa de sentir nas mãos a textura de todos os objectos – está a ler, a comunicar e a descobrir.

Todas as crianças são, por conseguinte, e desde sempre, leitoras por excelência. E agora não resisto a introduzir aqui uma nuance, uma pausa e uma diversão no significado desta palavra: leitora. E diria assim: as crianças são leitoras, tanto no sentido de ler o mundo, como no sentido de beber o leite que o mundo lhes dá.

Este segundo sentido da palavra parece não fazer sentido nenhum. Deixem-me, então, contar-vos uma história: um dia, teria o meu filho mais novo uns 3 anos, enquanto lhe lia um livro que continha ilustrações de animais da quinta, ele disse, com ar desconsolado: eu nunca vi uma vaca leitora, mamã... eu queria ver uma!

Na altura dei uma gargalhada e tentei perceber que raio queria ele dizer. Não levei muito tempo a entender, quando me lembrei de uma pergunta que ele me fizera há poucos dias: o que é leitura, mamã? Ao que eu respondi e ele reagiu, desconfiado: leitura parece que vem de leite! E desde aí, até hoje, com 13 anos, sempre que ouve a palavra leitura, ou leitor, ele associa a leite. Deste modo, a vaca leitora é a vaca que dá o leite – ou seja, vaca leiteira.

Claro que expliquei isto ao meu filho, mas a mente dele continua a teimar nesta associação. Eu própria fiquei a pensar nela: nas possibilidades de leitura, de desconstrução das palavras; na geração de novos significados através de associações criativas. Fiquei a pensar em como cada leitor lê (ou bebe) o mundo, ou o sumo do mundo (o leite) à sua maneira, e de como isso alimenta, gera em cada um de nós a imaginação e a fantasia, que por sua vez enriquece o mundo (o nosso, interior, individual, e o exterior, o local de encontro com o outro).

Como já devem ter percebido, foi desta história que nasceu a Vaca Leitora, o conto infantil publicado o mês passado pela D. Quixote. A história de uma vaca que está farta do sabor do pasto, sempre igual – está farta de estar sempre a ler a mesma coisa – e um belo dia, já em desespero, começa a comer as folhas do jornal que o senhor Manuel, o dono da quinta, distraído, deixou em cima do muro. A vaca começa, então, a ruminar palavras e isso traz um sabor especial ao seu leite.

Ruminar palavras, brincar com os seus significados, construir novas palavras, novos conceitos, novos mundos: é isto que as crianças fazem ao brincar, primeiro com os objectos, as mãos, o corpo, e depois com as ideias, as palavras, os símbolos, a imaginação. É isto ser leitor: ler, ou beber o mundo para assim criar novos mundos.

Saturday, 9 April 2016

Um vazio do tamanho da nossa ignorância

Hoje em dia está na moda achar que todos os livros são autobiográficos. Deixem que diga: não há livros autobiográficos, a não ser as autobiografias. E, mesmos nestas, não me parece que os autores sejam capazes de pôr a ficção de lado, simplesmente porque ninguém consegue tal proeza. Nós ficcionamos o tempo todo. Como é que alguém se consegue comover com um raio de sol a dissolver as nuvens de um dia cinzento, as ondas do mar, as estrelas no céu ou uma paisagem de sonho? Reparem: as estrelas são apenas explosões a milhares de milhões de anos-luz, a maioria já extintas. A água do mar é composta por um átomo de oxigénio para dois de hidrogénio, em estado líquido, e as respectivas pontes. Isso e mais uma enxurrada de minerais. Não tem mistério nenhum. Os raios de sol são uma ilusão, já que a luz, à prodigiosa velocidade aproximada de 300 mil quilómetros por segundo, é invisível; ou melhor, é ela que nos permite ver, mas não a podemos ver a ela. Ou seja, se nos limitássemos a ver o mundo tal como ele é, não haveria poetas.

Nem poetas, nem alma, nem transcendência, imaginação, fantasia, idealização. Não haveria humanidade. Ponto final.

Hoje em dia, porém, ninguém parece interessado em fantasia, imaginação, transcendência. A obra literária é apenas um pretexto para espreitar para dentro da vida do autor, como as crianças que espreitam pelo buraco da fechadura da casa-de-banho. Se a personagem sofre de depressão e melancolia então o autor deve sofrer de depressão e melancolia, se se suicida é porque conhece de certeza alguém que se suicidou (uma vez que ter-se suicidado o autor para escrever sobre isso seria disparatado), se no livro há uma família disfuncional é porque o autor deve ter crescido numa, se relata violência é porque certamente  experimentou essa violência, se descreve um episódio de violação é porque foi violado, se conta a história de uma criança orfã é porque ou é ele próprio orfão ou conhece alguém, senão como é que conseguiria descrever tão bem todas estas situações? Isto não é ler, senhores, isto é tecer considerações sobre a vida alheia, um dos passatempos mais disseminados nestes estranhos tempos. O analfabetismo de ontem deu lugar a um outro tipo de iliteracia. Ler não é apenas decifrar um código linguístico; é, acima de tudo, deixarmo-nos transportar pelas palavras, abrir a porta para outros mundos, outras realidades.

Aqui há tempos um grupo de estudantes de uma das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos redigiu uma lista de livros que considerava perigosos ao mesmo tempo que solicitava a sua remoção dos programas curriculares, justificando que a leitura de tais livros poderia perturbar emocionalmente os leitores e até levá-los ao suicídio. Da lista constavam obras como a Metamorfose de Kafka e outros grandes nomes da literatura clássica. Isto é preocupante. As universidades deixaram de ser locais onde se exercita o pensamento; a escola deixou de educar para a reflexão e expressão criativa, para o desenvolvimento das capacidades de abstracção das ideias. De que outra maneira se explica que estes estudantes tenham medo de pensar? A capacidade de pensar constitui o único e verdadeiro espaço onde a liberdade não tem limite. Perder esse espaço é perder humanidade, é tornarmo-nos prisioneiros do mundo concreto, aquele onde os raios de sol não passam de uma ilusão e as estrelas já morreram há muito no meio de um vazio imenso e obscuro, do tamanho da nossa ignorância.